Quinta-feira, 16 de Novembro de 2006
Conversa com o Prof. Rómulo de Carvalho...

 

"Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence:
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence
"
António Gedeão



(Á minha frente deveria estar o prof. Rómulo Carvalho...)


Em 14 de Outubro escrevi neste blogue um pequeno artigo sobre António Gedeão
Acontece que, após a publicação do mesmo, tive oportunidade de marcar uma entrevista com o poeta que decorreu, há dias, em plena Avenida dos Aliados, mesmo junto ao “espelho de água” que lá se encontra.

Sentados à mesa (de ferro, presas ao chão da “calçada portuguesa”) e tendo a Milú como repórter fotográfico, lá iniciamos a nossa conversa:

- Boa tarde, professor. Quero agradecer a sua disponibilidade…

- Meu amigo, eu tenho todo o tempo do mundo! – interrompeu-me com um sorriso.

- … para esta nossa conversa. Mas, porquê a Avenida dos Aliados?

- Eu diria esta Avenida dos Aliados, despojada dos bancos vermelhos e dos jardins coloridos, agora substituída por esta modernice de pedra dura e cinzenta, deste espelho de água suja, um atentado à saúde das crianças que lá se banham, como se duma piscina se tratasse, destas cadeiras de ferro que até para mim são desconfortáveis.

- Mas há muita gente feliz com esta nova Avenida, mais ampla, mais adequada a actividades culturais, mais convidativa a trazer pessoas para a rua…

- Acredita nisso? – perguntou-me, enquanto cruzava as pernas e limpava o pó do tampo da mesa.

- Acredito no Futuro, professor… não sei se esta massa dura e cinzenta que veio substituir o verde da relva, o colorido dos canteiros, as rizadas das crianças a darem migalhas de pão às pombas e aos pássaros que passavam por aqui… não sei, realmente, se o Futuro em que acredito passará por aqui! Mas, professor, os meus leitores esperam realmente uma entrevista com Rómulo Carvalho, alas, António Gedeão…

- Como professor ou como poeta? – perguntou, sorrindo.

- Penso que ambos se completam! E começava com um pouco da sua história…

- Vamos lá a isso!

- O professor Rómulo de Carvalho cedo começou a escrever os seus poemas. Quando no Liceu tudo apontava para uma natural escolha pela área das letras, devido à sua aptidão para escrever e fazer poesia, tal não aconteceu. Em contacto com as Ciências e atraído pelo lado experimental destas, escolheu a área de Ciências, vindo a estudar Ciências Físico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, formou-se em ciências pedagógicas e exerceu durante 40 anos a sua função de professor e de pedagogo. Reformou-se em 1974, com 40 anos de ensino, um pouco desiludido com a falta de autoridade e a desorganização do ensino em Portugal...

- Um pouco, não! Sempre fui um homem exigente e rigoroso. Não podia pactuar com aquela situação de anarquia e confusão que se estabeleceu depois da revolução... mas não me pergunte nada sobre a situação actual do ensino, a luta dos professores e muito menos sobre a ministra… felizmente já não faço parte deste mundo!

- Tinha ideias em tocar nesse assunto. Fica para um dia destes… Esclareça-me uma coisa, chegaram a convidá-lo para leccionar na Universidade...

- Declinei o convite e dediquei-me por inteiro àquilo que mais gostava: a investigação e a divulgação científica.

- Diga-me, professor, um homem que desde os 5 anos viveu em completa comunhão com a escrita, como é que decidiu em se licenciar-se em Ciências? Deveu-se à atracção pelo lado experimental destas?

- Desde muito novo que escrevia, é verdade, fazia os meus poemas, tínhamos saraus literários lá em casa, com a minha mãe e os meus irmãos! Mas também desde muito novo que gostava de trabalhar com as minhas próprias mãos... se não tivesse escolhido a área do ensino gostaria de ser marceneiro, pedreiro, metalúrgico... Sabe, fiz muitas coisas lá para casa, até fiz mobílias!... A Física e a Química sempre me atraíram não só pelo seu lado experimental mas e sobretudo por poder meter as mãos na própria matéria.

- O que foi para si ensinar?

- Ensinar?...foi uma espécie de mágica! Foi tornar as coisas mais comuns do mundo em objectos de contemplação e reflexão. Foi suscitar a curiosidade, foi fomentar a imaginação e usá-la como ferramenta duma conjectura que propus aos alunos e a que eles aderiram, recriando-a, porque a “descobriram”. É claro que para se criar o gosto de aprender foi preciso fornecer as bases necessárias para que os alunos confiassem nas suas habilidades para conjecturar. Restou-nos a nós, professores, encaminhá-los e guiá-los no início da caminhada, adverti-los dos riscos que poderiam ser assumidos e, sobretudo, reconhecer o esforço e os progressos por eles desenvolvidos.

- E… António Gedeão?

- Gedeão?... bem, nasceu oficialmente quando eu já tinha 50 anos (por volta de 1956), - uma boa idade para que eu já tivesse juízo!!!, com a publicação do meu primeiro livro de poesia “Movimento Perpétuo”. Mas Gedeão sempre existiu, fazendo parte integrante de mim próprio! A paixão pela poesia vinha desde criança...

- Influência da sua mãe?...

- De certo modo sim. O clima que tínhamos em casa era uma espécie de tertúlia, como já lhe disse... Sei que embora ela não escrevesse poesia, bem lá no fundo ela a fazia. Tudo o que hoje sou é uma reprodução dela... por exemplo, a Rosa, a Rosinha, que eu me refiro num dos meus poemas — Mãezinha — é uma homenagem a ela... vamos lá ver se ainda me lembro como é... O meu pai caminhava todos os dias pela mesma rua. Vou eliminando sucessivamente as mulheres, por esta razão ou por aquela, até restar uma única... “A que sobeja / chama-se Rosinha. / Foi essa que o meu pai levou à igreja. / Foi a minha mãezinha.”

- “Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida...” Estas palavras foram apresentadas pela primeira vez em 1969 no programa “Zip-Zip”, pela voz de Manuel Freire. O poema chama-se “Pedra Filosofal” e rapidamente marcou uma geração, tornando-se uma bandeira de luta e de crítica à ditadura de então...

- O sonho comanda a vida! Quando escrevi a Pedra Filosofal foi uma forma de abanar com muita gente, tirá-las do amorfismo a que se tinham acomodado tempo demais. Mas continuo a acreditar que o seu êxito se deve, sobretudo, a ter sido musicado e cantado pelo Manuel Freire!... O poema, por si só, não tem a força que lhe deu a música e a voz do Manel...

- Como considera o homem de hoje?

- Sou muito descrente na evolução da espécie humana... e a prova está bem diante do seu nariz. Os chamados progressos científicos deixam-me cada vez mais em pânico! O homem de hoje faz tantas ou mais barbaridades que o das cavernas. Continua bárbaro como há milénios...ou antes, mais bárbaro, pois cada vez com mais consciência destrói quer o seu semelhante quer esta aldeia global onde todos vivemos... e no entanto o progresso técnico e científico evoluiu à velocidade da luz! Mas em que direcção?!!! Não sei!!! Quase que me atrevo a pensar na destruição da própria espécie... !!! Espero que a mãe natureza tenha uma melhor solução para esta praga que se chama Homem...

- Então não acredita nas virtudes da Humanidade?

- Nem por sombras!!! Individualmente há pessoas com muitas virtudes, capazes de fazerem alguma coisa, mas sozinhas não conseguem nada. O erro está na essência do homem em si! Mesmo que digam a alguém para não fazer isto ou aquilo, para não cortar, por exemplo, todas as árvores, porque isto mais tarde ou mais cedo vai atentar contra a vida dos outros, querem lá saber! Negócio é negócio... encolhem os ombros e fazem o seu negócio. Os cifrões é que contam!!...

- António Gedeão morreu como começou...

- Depois de “Novos Poemas Póstumos” resolvi que o melhor seria matar o poeta. Já não valia a pena escrever mais, pois poderia cair no hábito de me repetir. Achei melhor ficar por ali... morreu o Gedeão, paz à sua alma!! Mas dentro de mim, tal como fez a minha mãe, continuei a escrever... penso que quando dei o último suspiro fiz uma quadra...

- Qual?

- Qual?!!! Mas que pergunta... morri! Não tive tempo de a escrever!!!

- O que foi para si escrever poesia?

- Penso que uma necessidade íntima de nos queixarmos daquilo que vemos, sentimos e lemos... – já pareço o Francisco Fanhais!...

- O professor Rómulo e o poeta Gedeão querem deixar uma mensagem aos leitores?

- Aos leitores?... não sei quantos colegas irão ler o seu blogue... Para eles, professores como eu fui, uma pergunta apenas: ainda não deram, em doidos com o ensino em Portugal, com a falta de disciplina e, sobretudo, com a falta de respeito?!! Por muito menos eu afastei-me do ensino!!!... Como Gedeão, mesmo depois de literalmente morto, a obra que vos deixei continua bem presente nos dias de hoje...o sonho, para muitos, continua a comandar a vida! E sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança. E com esta me vou… já reparou na multidão à nossa volta? Ainda vão julgar que é maluquinho…

- Obrigado pela nossa conversa, Professor Rómulo de Carvalho. – disse, quedando-me a olhar para a cadeira à minha frente.

 

Foi então que reparei na multidão que me rodeava, atraída pelo meu falar e pelos sarrabiscos que debitei no bloco de apontamentos.

 

A Milú fartou-se de tirar fotografias… embora as pilhas fossem novas, carregadas antes de sairmos de casa, descarregaram-se misteriosamente…

Apenas ficaram estas duas com que ilustrei o artigo!!!

 

(A sombra negra não é um Ovni... apenas o respiro do Metro...)

 

----------
Como apontamento musical deixo-vos com a "Cantata da Paz" interpretada por Francisco Fanhais.
---------------------------

José Gomes

16 Nov. 2006

 

 


sentimento: a regressar à Vida!...
música: "Cantata da Paz" - Francisco Fanhais

publicado por zeca maneca às 18:48
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8 comentários:
De anónimo a 16 de Novembro de 2006 às 20:13
Gostei muito da entrevista! Apanhou-o bem disposto embor aum pouco céptico! Pena que não tenham falado na "Lágrima de preta" um dos melhores poemas da língua portuguesa. E das outras línguas também!... :-)
Fica para a próxima entrevista!


De Ludovicus Rex a 16 de Novembro de 2006 às 21:16
Uma Entrevista magnifica de Um grande Senhor e de um Grande Mestre. O sonho comanda a Vida...
Um abraço, um belo trabalho.


De wind a 16 de Novembro de 2006 às 21:04
Excelente post!!!!!!!!!
Como coega de Rómulo de Carvalho também concordo com ele, deixei de leccionar directamente, como António Gedeão, gosto muito dele:)
Beijos para a família:)*


De RosaTeixeiraBastos a 18 de Novembro de 2006 às 23:21
Parabéns, Zé!
Excelente!
Um beijo para vós.


De Menina_marota a 19 de Novembro de 2006 às 18:13
Excelente!

Deixo aqui um Poema de Rómulo de Carvalho/ António Gedeão, como prova do meu apreço:

"Poema para Galileo"

"(...)Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa
ou que um seixo na praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
(...)Por isso estoicamente, mansamente,
resistente a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos. "

Um abraço carinhoso e boa semana a todos ;)



De Menina_marota a 19 de Novembro de 2006 às 18:14
Excelente!

Deixo aqui um Poema de Rómulo de Carvalho/ António Gedeão, como prova do meu apreço:

"Poema para Galileo"

"(...)Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa
ou que um seixo na praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
(...)Por isso estoicamente, mansamente,
resistente a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos. "

Um abraço carinhoso e boa semana a todos ;)



De M.F. a 20 de Novembro de 2006 às 23:37
Não me admira nada que Rómulo se mostre desanimado com os arranjos da avenida e com o andamento do mundo. Provavelmente, no seu etéreo estado, se ache mais consciente da realidade que qualquer um de nós. Se aperceba da nossa inevitável perdição e se mostre indiferente a este descambar.
O “ovni” foi bem apanhado! Talvez seja já uma visão futura. Quando já nem sequer existir a avenida! Quando se esgotarem os temas e os poetas estiverem todos para lá deste mundo! Se já lá não estão!
Sem mesas nem cadeiras.
Nem conversas!
Nem guarda-chuvas!
Nem José Gomes para os entrevistar!!


De Menina_marota a 24 de Novembro de 2006 às 00:11
Olá, Zé...
Falei do teu blogue ao Luís Gaspar do Estúdio Raposa
http://www.estudioraposa.com/
e ele veio aqui conhecer o teu blogue e leu esta entrevista e quer usá-la no Palavras de Ouro.
Vou enviar-te um email, para conhecimento teu.
Um abraço ;)


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