Sábado, 16 de Dezembro de 2006
Natal... eu tenho um sonho!

 

 

BOM NATAL! BOM ANO NOVO!

(Discurso que todos os anos se repete, mas que nunca se cumpre)

 

Natal

Menino dormindo... / Silêncio profundo. / Benvindo, benvindo, / Salvador do Mundo! Noite.

Noite fria. / Mas que lindo que é! / De um lado Maria. / Do outro José. /

Um anjo descerra / A ponta do véu... / E cai sobre a Terra / A imagem do Céu! [1]

 

Este poema foi escrito naquele tempo em que todos nós – crianças e adultos – sentíamos ainda o Espírito de Natal.

Nos dias de hoje, Natal não passa de uma mera “palavra”, com significado igual ao daqueles dias de "qualquer coisa" que se comemoram nos 365 dias do ano.

Em Dezembro, as luzes coloridas dão novas cores e novos ritmos às árvores, às varandas, aos portais e às janelas das casas. No ar paira um espírito de festa, de pseudo-alegria e de mistério. As músicas natalícias ouvem-se em cada canto e esquina, adormecendo a razão de quem as escuta.

Toda a gente – rica e pobre – se acotovela diante dos escaparates e das montras deslumbrantes... Multidões irrompem pelas lojas, subjugadas aos deuses do consumismo, inebriadas pelas coisas inúteis que compram sem pensar e muito menos sem precisar...

 

Neste mês finge-se que tudo é diferente:

— Diz-se “Bom dia”, com um sorriso no rosto, ao vizinho... – que é ignorado todo o resto do ano!
— Olha-se para os idosos com mais respeito e com um sorriso nos lábios, dá-se-lhes um pouco mais de carinho, de atenção, de amizade... - para, durante o resto do ano, se continuar a ignorar a sua existência!
— Para os “pobres”, os “sem abrigo”, os marginalizados, os indigentes, os doentes... lá estão os nossos “primeiros”, “segundos” e “terceiros” a dar-lhes a anual “sopa de pedra”, entre um sorriso e um piscar de olhos ternurento (mas só para as câmaras dos meedia os focar num grande primeiro plano!)... e, durante o resto do ano, continuarem a ignorar que estes (pobrezinhos, sem abrigo, marginalizados, indigentes, doentes) existem e que continuam a precisar de comer, vestir, dormir e, sobretudo, de trabalho que lhes permita sobreviver com dignidade!

 

Por isso dei por mim a pensar...

 

Ø      Na “Balada de Neve” de Augusto Gil, naqueles "pezinhos de criança", no frio e na dor que sentem ao caminhar...

Ø      No poema de Ary dos Santos que, ontem como hoje, ilustra bem o “faz de conta” desta época que vivemos: “Tu que dormes a noite na calçada ao relento / Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento / Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento / És meu irmão amigo / És meu irmão / (...) [2].

 

Mas o tempo avança inexoravelmente e as pessoas continuam a caminhar, atarefadas, sem ter tempo, sequer, de olhar para o lado...

 

A época natalícia sucede-se ano após ano, com os mesmos gestos, os mesmos fracassos e as mesmas promessas. Fala-se de Fraternidade Universal, fala-se do Criador, fala-se de Jesus que nasceu numa manjedoura...

Porque não falar num Jesus mais adaptado a este mundo real?

Natal

Nasceu! / Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco, / e num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados, / Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada, / Os pés no asfalto negro, onde circulam carros de luxo: / Pedir boleia, pediram, mas ninguém viu ou quis ver, / Ou escutar o gesto...

Iam apressados para a ceia da noite, / Desbragada como um conta-quilómetros / E cheia de neblina e promessas.

Nasceu!

Num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados.

(...) [3]

 

Finalmente é chegado o dia de Natal!...

 

"Hoje é dia de ser bom. / É dia de passar a mão pelo rosto das crianças / De falar e de ouvir com mavioso tom, / de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças".

"É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem, / de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, / De perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, / de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria"

(...) [4].

 

Milhares de mensagens vão atravessar o ciberespaço nas vésperas e no dia de Natal, compondo coisas lindas nos mais de 9 milhões de telemóveis que inundam este país de contradições e do faz de conta!... para gáudio das operadoras que, assim, vêem os seus lucros subirem em flecha!

 

Este mesmo ritual vai-se repetir na noite de 31 de Dezembro!... Desta vez regado com espumante e ao som das 12 badaladas da meia-noite, como manda a tradição! Frases, pensamentos, mensagens (melhor ou pior elaboradas) vão ser trocadas num desejo mútuo de tudo de Bom, muita Saúde, Paz, Fraternidade e Amor...

 

Mas a velha dúvida persegue-me!... e interrogo-me, o que como será possível desejar para 2007...

Tudo de Bom... — se irão subirão as rendas de casa, a electricidade, as portagens, os táxis, a água, os transportes públicos, o pão?!!!...


Tudo de Bom...
— se vão continuar as falências, os despedimentos, o desemprego?!!!...


Muita Saúde... —
com o sistema de saúde que temos?!!! Com a maioria do nosso povo auferindo um salário mínimo de 385,90 euros?!! Serão suficientes para pagar os medicamentos, os honorários dos médicos, os tratamentos, os internamentos?!!!...


Paz... —
com tanta instabilidade e tantas guerras à nossa volta e sem qualquer vontade política de lhes dar fim?!!!...


Fraternidade... —
se impera a lei da selva na nossa sociedade e no mundo em geral, do vale tudo, da competitividade desenfreada e sem regras...


Amor… —
se nem sequer há tempo para se DAR e muito menos para se poder COMPARTILHAR?!!!...

 

 

16 de Dezembro 2006

José Gomes



[1]Natal”, poema de Pedro Homem de Mello.

[2] Excerto de “Quando um Homem Quiser”, poema de Ary dos Santos.

[3] Excerto do poema “Natal”, escrito na noite de Natal de 1952, pelo poeta Amândio César.

[4] Excerto de “Dia de Natal”, poema de António Gedeão.


 

 


sentimento: ... sei lá?! Para o ano digo!!
música: "I have a dream" - Abba
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publicado por zeca maneca às 21:15
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9 comentários:
De Ludovicus Rex a 16 de Dezembro de 2006 às 22:44
A máxima será - "Nunca Baixar os Braços! Sim, Um Mundo Melhor é Possivel!"
Um abraço


De wind a 16 de Dezembro de 2006 às 22:48
Excelente Post! Beijos


De Menina_marota a 17 de Dezembro de 2006 às 19:29
Como eu te percebo, meu Amigo! E como concordo contigo! Muito e muito!!

Um abraço carinhoso e renovo meus votos de um Feliz Natal


De José Gomes a 20 de Dezembro de 2006 às 12:49
Para os amigos que deixaram aqui um comentário, para os leitores que por aqui passaram, desejo-vos um BOM NATAL e que o Ano Novo que se aproxima a passos largos seja um ANO em que a PAZ conheça realmente a sua verdadeira dimensão.
Muita Saúde, Amor e Realização Pessoal.
Um grande abraço,
José Gomes.


De M.P. a 22 de Dezembro de 2006 às 20:53
Um Feliz Natal cheiinho de coisas boas, de Paz e de Alegria! Um Abraço Amigo **


De Menina_marota a 27 de Dezembro de 2006 às 15:12
Vim desejar-te e à tua Família umas boas entradas em 2007.
FELIZ ANO NOVO

Com um GRANDE ABRAÇO DE AMIZADE



De Poesia Portuguesa a 27 de Dezembro de 2006 às 15:14
"Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz..."


(Miguel Torga in "Diário XIII")

Feliz Ano Novo


Boas entradas em 2007

Um abraço carinhoso ;)


De indeciso2 a 29 de Dezembro de 2006 às 14:21
Abrir o teu blog tem sido muito difícil, penso já to ter dito. Mas hoje apenas desejra-te e aos teus, um ano de 2007 pleno de Paz!
Um carinhoso abraço


De blugaridades a 1 de Janeiro de 2007 às 12:02
Um post lindíssimo! Foi a primeira vez que por aqui
passei e gostei muito de tudo quanto li.
Um Ano Novo muito feliz. Que todos os teus objectivos se concretizem.
Beijinhos


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