Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
João de Deus



João de Deus

(1830 - 1896)


João de Deus
nasceu em S. Bartolomeu de Messines, no Algarve, a 8 de Março de 1830 e morreu em Lisboa a 11 de Janeiro de 1896.

Estudou Direito na Universidade de Coimbra, concluindo a sua formatura em 1859. Neste período conviveu com Teófilo Braga e Antero de Quental. Aí desenvolveu a sua capacidade de improvisação poética, por vezes acompanhando à viola variações do cancioneiro popular, sobretudo poemas de sabor popular e sátiras, que os seus amigos se encarregaram de escrever e compilar.

Depois de uma actividade profissional sem relevo como advogado e jornalista foi eleito, em 1869, deputado pelo círculo de Silves e passou a residir em Lisboa.

Em 1869, foi editada a sua primeira colectânea, Flores do Campo. Deve-se a Teófilo Braga esta edição, com o título de Campo de Flores, de uma compilação dos seus textos líricos e satíricos (1893) e dos textos em prosa (Prosas, 1898).


Em 1876, João de Deus envolveu-se nas campanhas de alfabetização, escrevendo a Cartilha Maternal, um novo método de ensino da leitura, que o distinguiu como pedagogo.

Em 1878, no prefácio da terceira edição da Cartilha Maternal e sobre os métodos da instrução, escreveu-se assim:


“Porque razão observamos nós, a cada passo, n'os filhos da indigencia, meramente abandonados á escola da vida, uma irradiação moral, uma viveza rara n'os martyres do ensino primario ?

Ás mães que do coração professam a religião da adoravel innocencia, e até por instincto sabem que em cerebros tão tenros e mimosos todo o cansaço e violencia póde deixar vestigios indeléveis, offerecemos, neste systema profundamente prático, o meio de evitar a seus filhos o flagello da cartilha tradicional”.


O sucesso da Cartilha Maternal foi tão grande que em 1888 as Cortes a adoptaram como método oficial de leitura e João de Deus foi nomeado Comissário Geral do Ensino da Leitura.

Os amigos de João de Deus lançaram em 1882 a "Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus".

Em 1895, foi organizada uma grande homenagem ao poeta à qual se associou o Rei D. Carlos. Foi-lhe proposto um título nobiliárquico, que recusou. A Academia Real das Ciências proclamou-o Sócio de Honra.


Em resposta à homenagem de estudantes de todo o país que se dirigiram a sua casa em grande cortejo, João de Deus assomou à varanda e declamou de improviso:


Estas honras e este culto

Bem se podiam prestar

A homens de grande vulto.

Mas a mim, poeta inculto,

Espontâneo, popular...

É deveras singular!


João de Deus morreu em 1896, tendo sido sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, honra reservada a um punhado dos mais notáveis portugueses.

Meses depois, quando o seu filho João de Deus Ramos ingressou na Universidade de Coimbra, ao contrário dos hábitos impostos aos caloiros, foi-lhe reservada uma recepção apoteótica com capas pelo chão, só por ser filho do poeta e pedagogo João de Deus.

Deixo-vos com o poema que marcou a minha infância e juventude:

 

A VIDA

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo

a luz que nesta vida me guiava,

olhos fitos na qual até contava

ir os degraus do túmulo descendo.

 

Em se ela anuviando, em a não vendo,

já se me a luz de tudo anuviava;

despontava ela apenas, despontava

logo em minha alma a luz que ia perdendo.

 

Alma gémea da minha, e ingénua e pura

como os anjos do céu (se o não sonharam...)

quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

 

Não sei se me voou, se ma levaram;

nem saiba eu nunca a minha desventura

contar aos que inda em vida não choraram ...

 

A vida é o dia de hoje,

a vida é ai que mal soa,

a vida é sombra que foge,

a vida é nuvem que voa;

a vida é sonho tão leve

que se desfaz como a neve

e como o fumo se esvai:

A vida dura um momento,

mais leve que o pensamento,

a vida leva-a o vento,

a vida é folha que cai!

 

A vida é flor na corrente,

a vida é sopro suave,

a vida é estrela cadente,

voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,

onda que o vento nos mares

uma após outra lançou,

a vida – pena caída

da asa de ave ferida –

de vale em vale impelida,

a vida o vento a levou!

 

 

 

Sobre João de Deus, a sua lírica e a sua vida. há outras referências.

Como início de procura, sugiro a visita à Associação de Jardins Escolas João de Deus que mantém a sua Casa-Museu em Lisboa junto ao Jardim da Estrela e ao projecto Vercial que editou um CD-ROM que inclui uma versão completa do "Campo de Flores".

 

José Gomes



sentimento: A começar...
música: "Canção com lágrimas" - Adriano Correia Oliveira

publicado por zeca maneca às 15:51
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6 comentários:
De wind a 22 de Janeiro de 2007 às 20:56
Excelente post:)
Assim , sim e quero mais como este a que já nos habituasre ;)
beijos*


De TMara a 23 de Janeiro de 2007 às 09:38
muito merecida lembrança. Rigorosa como sempre, sem cansar, e abrindo o apetite.
Boa semana.
bj.
Luz e paz em teu caminhar e ao teu redor


De zeca maneca a 23 de Janeiro de 2007 às 11:49
Obrigado, Wind, vamos lá ver se consigo.

Tmara, quero agradecer o teu comentário... é sempre um prazer receber a tua visita.



JG


De leonoreta a 27 de Janeiro de 2007 às 21:08
ola ze.
o post está feito com muita qualidade. gostei muito. há sempre coisas que aprendo contigo.

abraço da leonoreta


De O Conquistador a 31 de Janeiro de 2007 às 17:18
Amigo, esse homem que foi João de Deus, um grande defensor da educação da sociedade no século XIX e que deixou obras notáveis de educação escolar e outras como estão referidas aqui no teu post, são um legado para a futura geração ir ler e perceber os acontecimentos literários dessa época.
Um abraço e um bom resto de semana.


De Pequenina a 3 de Fevereiro de 2007 às 22:13
Amigo José, só hoje consigo estar aqui. Amigo, estou a ler os teus lindos textos. Parabéns Querido! E obrigada a ti, por divulgares a nossa humilde casinha! E qualquer coisa disponha, desta tua Amiga que admira-te muitíssimo !
Beijjjos carinhosos... Pequenina


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