Domingo, 8 de Janeiro de 2006
Recordações...
Dez 2005.jpg
(Pôr do Sol - Dez 05 - Praia de Miramar - V. N. Gaia)


No primeiro dia do ano é de tradição passar pela praia, sentir a areia nos pés e, mesmo vestido, molhá-los nas ondas do oceano – que nesta altura do ano não são nada mansas!
Sentei-me à espera do pôr do sol e “puxei a faniqueira atrás”, isto é, enquanto fazia desenhos na areia húmida das ondas, recordei aqueles anos em que esta era a minha praia, em que este era o meu mar, em que este cantinho era o meu mundo…
Foi assim que recordei este episódio da minha vida, passado neste mesmo local:

Já se passaram muitos anos....


As trovoadas de verão

Desde miúdo que fazia praia na Foz do Douro, num cantinho acolhedor que dava pelo nome de “Praia de Gondarém”.
Foi lá que fiz os primeiros amigos, que formamos um grupo que se encontrava todos os anos de Agosto até meados de Setembro.
Foi lá que aprendi a lidar com as frias águas do Oceano Atlântico.


Nesse tempo as águas do mar ainda não estavam tão poluídas, nem os rochedos tinham as manchas negras do crude derramado pelos barcos...

Mais tarde troquei a época de Julho a Agosto – época balnear por excelência – em que havia mais gente que areia (além do cheiro dos bronzeadores, das sandes, dos fritos, do frango, do vinho verde tinto, dos tachos de arroz de frango, das tripas à moda do Porto...) por 10 meses (Setembro a Junho) de praia à minha moda – mais calma, menos gente, mais limpa, mais espaço de areia, água mais quente… a temperatura desta oscilava entre os 16/17 graus para um ambiente exterior de 20/21 graus, nos meses mais quentes e menos de 10/12 graus nos meses mais frios... mas depois de um jogo de bola ou uma corrida pela areia e pelos rochedos, custava saltar para a água mas depois já não se queria sair de lá!...


Mas o que tem isto a ver com as trovoadas?


Passei por várias trovoadas durante os diferentes meses do ano, cada uma delas mais bela, mais espectacular (não posso dizer "assustadora", pois nunca me assustaram, mas olhava-as com um certo respeito... são sempre forças da Natureza e a esta sempre a tratei com o amor e o respeito que merece!), iluminando o céu com os seus raios que rasgavam as nuvens em todas as direcções, seguidas do barulho estonteante dos trovões.
Depois vinham aqueles pingos cada vez mais grossos, até se transformarem numa bátega de água cheirando a mar e a temperatura arrefecia!...
E uma paz interior invadia todo o meu corpo molhado! (Sim, mesmo aos gritos de “Zé, anda para aqui abrigar-te!” deixava-me ficar deliciado com a água que me encharcava!

Naquele dia estava eu, o banheiro e mais dois ou três companheiros de praia. Era um sábado à tarde.
Tinha chegado à praia pelas 15 horas e o céu estava carregado, cor de chumbo, ameaçador... soprava um vento do Sul, forte!


Depois da conversa da praxe, do jogo de voleibol (que interrompemos a meio por causa do vento), e quando nos preparávamos para o habitual banho de mar começaram a cair os primeiros pingos.
O céu tomara a cor da noite, as nuvens ficaram muito espessas e as primeiras faíscas começaram a atravessá-las...
O banheiro aconselhou-nos a esperar que a trovoada passasse.

Ficamos, então, sentados no barracão do banheiro (cheio de instrumentos de pesca, panos e armações das barracas de praia que esperavam a nova época balnear) e de lá contávamos o tempo que separava a luz do relâmpago e o ruído do trovão... O frio e o vento, embora estivéssemos abrigados, faziam contrair o corpo...

De repente, uma luz quase cegante logo seguida dum estrondo!...
O rochedo mesmo à nossa frente (mais ou menos a 50 m) foi atingido pelo raio que se confundiu num mar de cores e ruídos...
Um pedaço de rocha, com o peso de alguns quilos, flutuou entre a rocha e a areia húmida, envolto numa fluorescência azulada... pareceram-me horas que durou aquele fenómeno, até que terminou num "plock" seco ao se imobilizar na areia...


A trovoada foi passando, dando lugar ao Sol e ao céu azul...

Todos nós mantivemos o silêncio!...
Eu, alguns minutos mais tarde saí e fui até ao rochedo esgaravatar a areia molhada que cheirava ainda a ozono...
Não descobri o pedaço do rochedo arrancado pelo raio! Mas o “rochedo-mãe” tinha, ainda, a ferida aberta!

Sei que os meus companheiros foram "cheirar" o local depois de mim...
Até hoje, ninguém disse uma só palavra sobre aquele fenómeno. Nem o banheiro, sempre conhecedor dos mais incríveis fenómenos que a Vida, o Tempo e o Mar lhe ensinou…

O banheiro já morreu!


03 de Janeiro de 06
José Gomes

---------------------
"Tous les garçons et les filles"
Canta: Fançoise Hardy
CD: Les Chansons d'Amour
3,08"
----------------------------------




publicado por zeca maneca às 19:41
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3 comentários:
De anónimo a 10 de Janeiro de 2006 às 20:58
Olá Zé! Há muito tempo que não nos falamos... Dese o ano passado!
Quando era miúda tinha muito medo de trovoada e ainda hoje me mete um certo respeito. A tua história, como sempre, está muito bem contada.

BeijinhosNOKINHAS
</a>
(mailto:nokinhas@gmail.com)


De anónimo a 9 de Janeiro de 2006 às 19:46
Mais uma história das tuas que gosto tanto de ler:) beijoswind
(http://wind9.blogspot.com)
(mailto:sagit_126@hotmail.com)


De anónimo a 9 de Janeiro de 2006 às 17:05
Olá Zeca!!!
Que bela recordação!!
Nunca tinhas contado, pelo menos que eu estivesse presente.
Bonito recomeço do Movimentum original.
Beijosssssssssssssss
Maria MamedeMaria Mamede
</a>
(mailto:maria.mamede@hotmail.com)


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