Quinta-feira, 7 de Junho de 2007
Limpar o Almorode - a reportagem

(três fases do Almorode, hoje)

 

Limpeza do rio Almorode, na Várzea
 

A alegria da criançada presente neste dia na ponte do Almorode, em Vermoim, deu um tom diferente às cores deste rio e das suas margens.

Muitas crianças com os pais ou as educadoras, jovens e menos jovens mas dispostos a limparem um rio que os outros teimam em sujar, o carinho que aquele grupo da Protecção Civil, de uniformes alaranjados e galochas até aos joelhos, ou de uniformes pretos da Vigilância Florestal, encheram sacos enormes de lichos variados, desde garrafas de plástico a panos, restos de electrodomésticos a lâmpadas, sacos plásticos a papel que baste, já para não falar dos pneus, chapas e o mais variado sortido de peças…

Procurei, nas fotografias tiradas, ilustrar as horas em que a miudagem e os graúdos desenvolveram a acção de limpeza daquele pequeno troço do rio Almorode e que pretendeu sensibilizar não só os participantes mas também a comunidade de Vermoim, para a importância duma correcta gestão e conservação dos recursos hídricos.

Foi distribuído, no “arranque” da operação, um desdobrável que acho muito interessante. É dele esta transcrição que ilustra, de uma certa forma, as palavras proferidas pelo presidente da Junta de Freguesia de Vermoim a todos os presentes:

 
O Almorode
 

O rio Almorode, também conhecido por Avioso ou Arquinho, nasce em S. Pedro de Avioso (Maia) e desagua em Gueifães, no rio Leça, do qual é afluente. No seu percurso de 11 km atravessa, sucessivamente, as freguesias de S. Pedro de Avioso, Santa Maria de Avioso, Vermoim, Nogueira, Milheirós e Gueifães, recebendo água principalmente de 3 afluentes: a ribeira de Silva Escura, ribeiro de Guindes e a ribeira dos Mogos.

O Almorode, com uma bacia hidrográfica de 33 km2, é o maior afluente do Rio Leça e o maior curso de água que nasce no concelho da Maia.

 

Até ao último terço do século passado, os ecossistemas que lhe estavam associados eram ricos em biodiversidade, albergando uma fauna e uma flora pujantes. Peixes, anfíbios, répteis, crustáceos, mamíferos e toda a sorte de plantas aí conviviam em harmonia natural.

Constituía, igualmente, um importante recurso económico para as populações das suas margens. A fertilização induzida pelas suas cheias de Inverno tomavam os campos agrícolas adjacentes os mais produtivos de todo o distrito.

A força motriz das suas águas movia inúmeros moinhos que produzia a farinha que deu o pão a gerações inteiras de maiatos.

Até há 40 anos atrás, quando as máquinas de lavar eram mera ficção científica, pode dizer-se que o rio Almorode lavava a roupa a meia cidade do Porto. Era nas suas águas que muitas das inúmeras lavadeiras da Maia (a profissão que, em Vermoim rivalizava em número de efectivos com a de tamanqueiro) lavavam as roupas dos seus clientes da cidade do Porto, que transportavam em trouxas à cabeça. As roupas a secar e a corar, espalhadas pelas suas margens, eram a visão materializada do filme “Aldeia da Roupa Branca”.

 

Noutros tempos, em que o mundo era mais pequeno, o nosso rio foi o “Parque Temático”, a Disneylândia possível, de sucessivas gerações de crianças. Palco de mirabolantes aventuras e épicas “coboiadas”. Os seus “fundões” eram as piscinas onde se aprendia a nadar sem monitor, à custa de muitos “pirolitos” engolidos. Era o nosso pequeno Mississipi.

 

A industrialização e a pressão urbanística que se fez sentir nas suas margens, particularmente a partir de finais dos anos 60 do século passado, acabariam por transformar o Almorode num verdadeiro esgoto a céu aberto e matou a vida que pululava nas suas águas. Uma perda lamentável para todos nós.

 

Felizmente que o encerramento de algumas industrias e o investimento que foi feito no saneamento básico proporcionou a oportunidade ao Almorode para demonstrar a sua tenacidade e fibra de que é feito. As suas águas têm vindo a recuperar alguma limpidez e os ecossistemas que lhe estão associados têm vindo a recuperar. Os peixes regressaram e os lagostins vermelhos, espécie exótica invasiva, também já cá chegaram. Com eles regressaram as galinhas de água (galeirões) que, de boa vontade, introduziram os lagostins na sua dieta.

 

Porém, o leito do Almorode continua a ser para alguns, o seu vazedouro particular de toda a sorte de lixos. Desde pneus a bidões, passando por banheiras, carrinhos de bebé, cadeiras, garrafas plásticas e mobílias, de tudo se encontra no nosso rio. Esta situação não pode continuar. E não existe nenhuma desculpa para continuar. Existe recolha de lixo de porta-a-porta e os ecopontos e ecocentros estão espalhados pelo concelho.

A existência de lixo no Almorode é pura falta de civismo.
E isso não é tolerável.”
 
Uma pequena nota a esta acção:
 

- Nas primeiras fotografias que tirei ainda se pode ver o rio Almorode com águas relativamente limpas;

- Poucos minutos depois (podem ver nas fotografias respectivas) uma descarga poluente tingiu o rio;

- Apenas vi dois lagostins: um deles está morto. O outro, que foi “apanhado” pela objectiva, não sei como estaria – eu não o cheguei a ver!

- Pássaros, borboletas, répteis, primaram pela ausência!

- A alegria das crianças fazem-me acreditar que esta Terra ainda tem possibilidades de existir no futuro!

- O conformismo dos mais velhos… não augura nada de bom!

- Se não visse, não acreditava como é possível deitar-se fora tanto lixo… como sempre, à espera que o vizinho limpe!

- Deixo aqui um apelo: outra acção semelhante, mas desta vez com o comprometimento de todas as Juntas de Freguesia por onde este rio Almorode passa.

 

 

José Gomes





sentimento: esgotado!!
música: sem música, claro!!!
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publicado por zeca maneca às 23:26
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1 comentário:
De wind a 8 de Junho de 2007 às 11:43
Excelente reportagem e de facto faz impressão ver o que as pessoas deitam fora!
É má formação que têm!
Beijos


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