Quinta-feira, 21 de Junho de 2007
António Feijó


PÁLIDA E LOIRA

 

Morreu. Deitada no caixão estreito,

Pálida e loira, muito loira e fria,

O seu lábio tristíssimo sorria

Como num sonho virginal desfeito.

 

Lírio que murcha ao despontar do dia,

Foi descansar no derradeiro leito,

As mãos de neve erguidas sobre o peito,

Pálida e loira, muito loira e fria...

 

Tinha a cor da rainha das baladas

E das monjas antigas maceradas,

No pequenino esquife em que dormia...

 

Levou-a a morte na sua graça adunca!

E eu nunca mais pude esquece-la, nunca!

Pálida e loira, muito loira e fria...

 

António Feijó, in Líricas e Bucólicas, 1884

 


António Feijó (1859-1917)

 

António Joaquim de Castro Feijó, poeta e diplomata português, nasceu em Ponte de Lima a 1 de Junho de 1859 e faleceu em Estocolmo a 20 de Junho de 1917.

 

Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, onde teve por companheiros Luís de Magalhães, Manuel da Silva Gaio e Luís de Castro Osório, com quem fundou a Revista Científica e Literária.

Desde os finais de 1870 até ao início da década de 1890 colaborou em vários periódicos, nomeadamente na Revista Literária do Porto, Novidades, Revista de Coimbra, A Ilustração Portuguesa, Museu Ilustrado, O Instituto e Arte (revista internacional fundada por Eugénio de Castro e Manuel da Silva Gaio).

Em 1881 publicou o seu primeiro volume de poesias Sarcerdos Magnus e, no ano seguinte, Transfigurações, obras marcadas pela temática filosófica e pelo tom épico, que revelam um pessimismo e uma acusação nítida das imperfeições morais e sociais que o rodeiam. Seguiram-se Líricas e Bucólicas (1884) e À Janela do Ocidente (1885), reveladoras de um lirismo mais refinado.

Após um breve período em que exerceu a advocacia ingressou, em 1886, na carreira diplomática, sendo primeiro cônsul no Brasil e a partir de 1891, em Estocolmo onde foi promovido a ministro plenipotenciário em 1901. Aí viria a casar-se com uma jovem sueca, Mercedes Lewin, cuja morte prematura o viria a influenciar numa temática mais fúnebre, patente na sua obra (por exemplo, no soneto Pálida e Loira).

No Cancioneiro Chinês (1890), colecção de poesias chinesas adaptadas a partir da versão francesa de Judith Gautier, revelou o gosto pelo exotismo orientalista. Em Bailatas (1907), livro publicado sob o pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima, parece ter a intenção de parodiar o Decadentismo, mas a verdade é que muitas dessas poesias atingem consonância com a própria sensibilidade simbolista. Os seus últimos volumes, particularmente a colectânea póstuma Sol de Inverno (1922), espelham o lirismo sóbrio, o simbolismo depurado, os motivos melancólicos, outonais, os temas da saudade e da morte, que são algumas das características da sua obra.

 

Os temas da sua poesia estão frequentemente ligados a um certo desencanto, a um sentimento de decadência e mágoa (também devido ao afastamento de Portugal), e ainda de pessimismo. Ao tema recorrente da morte associa um ideal de beleza fria e mórbida.

O seu estilo contido e requintado, reflectindo, apesar da sua temática obsessiva, um distanciamento aristocrático, coloca-o num lugar singular da poesia portuguesa do seu tempo.

 



sentimento: Aiii este tempo!!!
música: "Asas Sobre o Mundo" - Carlos Paredes

publicado por zeca maneca às 14:27
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2 comentários:
De Ludovicus Rex a 21 de Junho de 2007 às 19:25
É sempre salutar relembrar homens da cultura...
Bem Hajas pelo post.


Um Abraço


De anónimo a 26 de Janeiro de 2013 às 18:29

Se poucos foram em Portugal os representantes do parnasianismo mais uma razão para apreciarmos e celebrarmos aqueles que o cultivaram de forma superior.

Juvenal Nunes


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