Sábado, 18 de Março de 2006
NATÁLIA CORREIA

Natalia.jpg


Natália Correia




“Foi-me preciso descobrir que:

A lógica é a ciência de gerir os rendimentos da estupidez;
Os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;
As pastas dos executivos levam dentro aranhas para urdirem as teias que nos imobilizam;
A família é um cardume de piranhas ao redor da carcaça de uma vaca
sagrada;
A sociologia é uma completa falta de humor perante a decadência;
Os gestores destilam um suor frio que nos constipa;
As nações içam as bandeiras para porem o falo a pino e masturbarem-se;
As esquerdas e as direitas resultam do pacto de não inverterem os papéis;
O socialismo é um estratagema para negar aos exploradores o direito ao desaparecimento;
O liberalismo é uma manha do Estado para forjar algemas com a liberdade;
Os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava;
A economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro;
Dos vencidos não reza a história porque se renderam à razão;

Para concluir que:

Chegou a hora romântica dos deuses nos pedirem desobediência.
Faço-lhes a vontade. A partir de hoje, se alguém me quiser encontrar que me procure entre o riso e a paixão.
”

(10 Janeiro 1983)
"A Ilha de Circe", de Natália Correia
(excertos)



Abordar este furacão de Mulher é simplesmente um trabalho do outro mundo. Mas vou tentar sintetizar ao máximo... se alguém, mais interessado, a quiser conhecer mais profundamente, terá que recorrer às bibliotecas ou, então, a amigos que a conheceram pessoalmente! A sua vida foi como ela:


 - Interessante, Intrigante, cheia de Energia...



Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Ponta Delgada, em Fajã de Baixo, uma freguesia arreigada de tradições e mitos, onde a magia e o oculto se interligam.

Veio, ainda criança, estudar para Lisboa. Iniciou-se muito cedo na escrita. Foi uma figura muito importante da poesia portuguesa contemporânea, exercendo a sua actividade criadora como Poeta, Dramaturga, Cronista, Ensaísta, Deputada, Oradora, Tradutora, Editora...

Mas foi na Poesia que o seu talento vanguardista e independente ganhou grande expressão o que lhe assegurou um lugar de destaque na cultura portuguesa da segunda metade do século XX.

Foi uma figura que se destacou na luta contra o fascismo, tendo apoiado a candidatura à Presidência da República do General Humberto Delgado.

A partir daqui viu vários dos seus livros serem apreendidos pela censura!

Frequentou, juntamente com Vitorino Nemésio, Ary dos Santos, Vinícius de Morais, David Mourão Ferreira, e outros, as recepções dadas pela Amália Rodrigues.

Mas cedo se afastou da fadista, não só pela sua postura de vida – Amália revolucionou o mundo cantando Camões e Natália desafiou o regime de Salazar, escrevendo “O Homúnculo”, peça sobre o ditador –, mas também pelas suas posições religiosas: Amália Rodrigues, segundo Natália, era uma beata que já não podia suportar mais; Natália Correia era uma herege insuportável, dizia Amália.

Foi deputada à Assembleia da República pelo P.S.D. (I e II Legislaturas)  e pelo P.R.D. na V Legislatura.

Foi uma lutadora pela defesa das liberdades e garantias da Mulher.

Mulher inigualável, nos caprichos e nas iras, na coragem e na esperança! Cantava e dançava, declamava, discursava e improvisava, de tal maneira que cada improviso seu chegava às raias do satírico, da polémica... (recordo, em plena Assembleia da República e de improviso o “Poema a João Morgado”, deputado do CDS, quando estava em debate a Lei sobre a Legalização do Aborto e um outro que declamou durante o debate da Lei contra o Alcoolismo, que marcaram bem a sua posição perante o mundo e a sociedade).

A partir de 1962, com Dórdio Guimarães (seu 4º marido), trabalhou para o cinema e televisão.

Com Isabel Meyrelles abriu o “Botequim”, um pequeno bar, espaço de convívio e tertúlia, onde se encontraram grandes vultos das letras e das artes do País.

Este espaço marcou a vida cultural e política portuguesa. Por aqui passaram projectos de arte e utopias, estratégias e revoluções! Pelas suas mesas, entre rosbifes e champanhe, entre música e declamações, debates e canções, viagens e fantasias, generais e presidentes, loucos e amantes, romances e ficções... que foram feitos e desfeitos, sem qualquer desânimo ou remorsos!

Desde muito cedo Natália Correia enveredou pelos universos do fantástico, do poético, do inexplicável, do contacto com os mortos, com extraterrestres e outras entidades.

Uma noite, no Botequim, em 1993, alguém que sabia que Natália iria morrer em breve, sussurrou a triste notícia a um amigo. Esta, suspeitando de algo errado, perguntou o que se passava:

- Vais ter de deixar de escrever por uns tempos... precisas descansar!

- Então isso significa que vou morrer?

Em 16 de Março de 1993, a poetisa sofreu, ao chegar a casa, um acidente cardiovascular e morreu em poucos minutos.

A vigília do seu corpo, na Casa dos Açores, levou de todos os cantos do País, durante dois dias e duas noites, milhares de pessoas e de flores! Por lá passaram amigos e inimigos, músicos e cantores, ministros e intelectuais, tunas e artistas, vadios e desportistas, autarcas e videntes, astrólogos e sacerdotes que olharam o esquife aberto com ela lá dentro, serena, muito branca e feliz, finalmente transformada em deusa pagã.

Ao terceiro dia foi cremada no cemitério do Alto de S. João.



“(...)
Basta o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio."


In “Passaporte” (1958).

José Gomes
16 de Março 2006


-----------------------------------
Procurei o poema de Natália Correia "Queixa das almas jovens censuradas" interpretado por José Mário Branco.
Não o descobri... e não vou perder mais tempo à procura!

Fui descobrir uma versão da Natália, de Lope de Vega, interpretada por José Afonso....

do CD: Contos Velhos Rumos Novos
"No Vale de Fuenteovejuna"


Na voz inesquecível de José Afonso


3' 35''


-------------------------------------------


 


 



publicado por zeca maneca às 19:09
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10 comentários:
De anónimo a 23 de Março de 2006 às 09:40
Olá Zé. Demorou mas cá cheguei. Estás de parabéns pelo magnífico texto com que nos presenteaste. Estes momentos de cultura são muito apreciados. Agora, outro assunto: Este blog vai acabar? Será que a tua decisão se deve ao facto das alterações migratórias exigidas pelo Sapo ou porque outros valores mais altos "se alevantam"?
O meu blog neste servidor possivelmente vai ser apagado por eles porque tenho passado horas em leituras e tentativas de migração sem qualquer resultado. É certo que para uma leiga como eu nestas andanças tudo se torna complexo para além do tempo ser escasso. Tenho pena porque no próximo dia 26 faz 2 anos que abri o blog. Enfim, vamos andando e vamos vendo... Um bjinho para ti e para as tuas meninas e os meus votos de que tenham um dia lindo.amita
(http://brancoepreto.blogs.sapo.pt)
(mailto:amitaf324@hotmail.com)


De anónimo a 20 de Março de 2006 às 15:09
A minha Poetisa preferida!!
Grata por este momento, de uma Grande Mulher!

Um abraço carinhoso Poesia Portuguesa
(http://portuguesapoesia.blogspot.com/)
(mailto:portuguesapoesia@sapo.pt)


De anónimo a 19 de Março de 2006 às 11:58
http://nescritas.nletras.com/poetasacantar/PoetasaCantar/archives/2003_10.htmllaura
</a>
(mailto:)


De anónimo a 19 de Março de 2006 às 11:57
no google há de tudo, como na botica ;)

queixa das jovens almas censuradas (http://nescritas.nletras.com/poetasacantar/PoetasaCantar/archives/2003_10.html)

laura
(http://degrausdelaura.blogspot.com)
(mailto:degrausdelaura@hotmail.com)


De anónimo a 19 de Março de 2006 às 10:07
mais k justa "lembrança" de uma mulher inesquecível e de uma poeta grande do país k é o nosso e do qual ela foi smp maior.
Bem hajas. Bjs e bom domingo :)TMara
(http://estranhosdias.blogspot.com/)
(mailto:Tostimara@gmail.com)


De anónimo a 19 de Março de 2006 às 06:28
Bom dia Zeca. Ainda é madrugada, mas a insónia obrigou-me a levantar. Por isso aqui vim e AMEI!!!
PARABÉNS!!!!!!!!
Um trabalho muito bom, música muito bem esxolhida e enquadrada, apesar de não ser aquele que querias.
Beijossssssssssss
Maria MamedeMaria Mamede
(http://xangrilah.blogspot.com)
(mailto:maria.mamede@hotmail.com)


De anónimo a 18 de Março de 2006 às 22:07
Magnífico post!
Ela era simplesmente genial!
Toma lá:

Queixa das almas
jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.




wind
(http://wind9.blogspot.com)
(mailto:sagit_126@hotmail.com)


De GR a 25 de Março de 2006 às 00:55
José Mário Branco : Queixa das almas jovens censuradas
Música: José Mário Branco
Letra: Natália Correia
In: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"; 1971
--------------------------------------------------------------------------------

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte



De zeca maneca a 25 de Março de 2006 às 17:37
Agradeço o poema enviado.
Desde o início que o tinha, falta-me só a versão cantada pelo Zé Mário.
Não sei onte tenho o CD.
Obrigado GR.
José Gomes


De Isabel Mesquita a 4 de Julho de 2008 às 15:41
Quem possui os direitos de autor de Natalia Correia???


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