Terça-feira, 25 de Outubro de 2005
RUY CINATTI - 1915 / 1986




Ruy Cinatti


Poeta, Agrónomo, Etnólogo, Antropólogo e Investigador


Ruy.jpg



Em 12 de Outubro de 1986 faleceu, em Lisboa,  Ruy Cinatti.

Foi um homem que deu e dedicou o melhor da sua vida em prole do desenvolvimento de Timor que amou como se sua Pátria fosse!
Através dele, do seu exemplo e da sua paixão a essa Terra de mil encantos, dedico-o a todos os Homens, Mulheres e Crianças timorenses de todos os tempos que, com o seu espírito de luta, a sua fé e, sobretudo, com o seu sacrifício, ajudaram a criar a mais jovem nação do século XXI - Timor Lorosa’e.


Premonição


Hei-de chorar
As praias mansas de Tibar e de Díli,
As manhãs, mesas de bruma, de Lautém,
Os horizontes transmarinhos de Dáre
As planícies agrícolas
De Same e de Suai.

“Timor-Amor” – 1974
                   
Ruy Cinatti




Estava a arrumar a estante e dei por mim a folhear vários livros que retratam Timor ao longo destes séculos... Reparei que em todas as obras que Ruy Cinatti escreveu – Poesia ou toda a sua investigação nos vários saberes, todos têm o mesmo denominador comum: Timor e o seu profundo amor por Timor.


Foi através da Poesia que conheci Ruy Cinatti.
Através dela fui conhecendo o seu espírito de aventura, o seu amor e o seu “dar-se” ao povo de Timor. Mais tarde acabei por descobrir o Agrónomo, o Etnólogo, o Antropólogo e o Investigador que se deixou enfeitiçar pela natureza deslumbrante, pela paisagem magnífica e acolhedora de Timor e do seu Povo.


Ruy Cinatti nasceu, em Londres, em 1915, filho de um diplomata português e de mãe de ascendência italiana. Desde muito jovem que a poesia lhe estava no sangue. “Nós não somos deste mundo”, o seu primeiro livro de poesia, que dedicou, em 1941, à memória da sua Mãe.


Foi galardoado com o Prémio Antero de Quental (“O Livro do meu Amigo Nómada” – 1958), Prémio Nacional de Poesia (“Sete Septetos” – 1967) e Prémio Camilo Pessanha, da Agência do Ultramar (“Cancioneiro para Timor” – 1968).



No início de 1946 Ruy Cinatti, engenheiro agrónomo, foi convidado pelo governador de Timor, Oscar Ruas, para secretário e chefe do seu gabinete. Chegou a Timor em finais de Julho de1946. Foi encontrar aquele território desbastado e deixado a saque pelos japoneses, como consequência da II Guerra Mundial.


Iniciaram-se de imediato os trabalhos de reconstrução da ilha. Ruy Cinatti fez um levantamento de todo o território, recolhendo espécimes da flora local. Foi aqui que descobriu plantas desconhecidas do mundo científico, a que deu o nome de “Podocarpus Imbricata” (uma espécie rara de Pinheiro Bravo), “Eucalyptus Cinathiensis” e “Justitia Cinatti” (espécies raras de Eucaliptos).


Durante as suas deslocações pelo interior de Timor travou conhecimento com os indígenas, a sua cultura, as suas tradições e os seus conhecimentos. Quanto mais os conhecia mais admirava aquele Povo...“o timorense é a nossa melhor arma política; sem ele não teria sido possível conservar a soberania portuguesa durante a guerra, num território tão distante da metrópole... O timorense é um ser adulto, pensante, com uma personalidade social definida e responsável” (In “A condição humana em Ruy Cinatti” – estudo sobre a vida e obra de Cinatti, pelo Pe. Peter Stilwell).


O trabalho e as pesquisas que desenvolveu em Timor foram incluídos na sua tese de licenciatura (Reconhecimento em Timor) que apresentou e defendeu em Lisboa (1950) e que teve a classificação de 19 valores.



Regressou a Timor como chefe dos Serviços de Agricultura, cargo que nunca chegou a ocupar pois o novo governador queria-o, não no meio dos indígenas e a fazer pesquisas pela ilha, mas sim sentado a uma secretária a mexer em papelada.


Ruy Cinatti sempre acreditou que o desenvolvimento agrícola desta Província só seria possível com uma articulação entre a cultura local e o respeito pela conservação das florestas. Mas os entraves, a indiferença e o ostracismo que as autoridades portuguesas sempre dedicaram àquele território e sem qualquer possibilidade de concretizar a missão a que se propusera desenvolver em Timor, pediu a sua transferência para a Junta de Investigação do Ultramar, em Lisboa.



Pouco antes de regressar a Portugal manifestou-se violentamente contra a atitude do governador de Timor que proibia o uso da “Lipa” (pano tradicional usado pelos homens em volta da cintura). Cinatti, protestou vivamente, classificando essa atitude de prepotente, de falta de respeito e de consideração pelos usos e costumes locais e uma afronta à dignidade dos timorenses.


Como é bom de ver, tanto o governo de Dili (Timor) como o governo central (Lisboa) ignoraram o seu protesto!


Em 1956, já em Lisboa, vê-se confrontado com a opinião pública que classificava o timorense como “... preguiçoso, arredio a qualquer esforço a que não seja forçado e pouco afeito a estímulos progressivos...”.


Indignado, publicou um manifesto “Em Favor dos Timorenses” em que rebateu estas afirmações transmitidas por aqueles que desconheciam a realidade timorense...


Em 1958 entregou ao governo o “Plano de Fomento Agrário para Timor” e preparava-se para regressar àquela província para pôr em prática o seu plano quando, através da Junta de Investigação do Ultramar, foi convidado a frequentar durante três anos um curso de Etnologia e Antropologia, na Universidade de Oxford, em Inglaterra.


Em 1961 regressou a Timor. Desenvolveu trabalhos de pesquisa na sua área, travando laços de amizade com os timorenses, chegando a fazer um pacto de sangue com dois chefes tribais.

Este pacto de sangue, além da grande honra que representou para um estrangeiro, deu-lhe abertura aos recintos sagrados, às iniciações tribais e acesso aos vestígios arqueológicos. Descobriu pinturas rupestres, recolheu histórias, mitos e tradições que, mais tarde, deixaria em livros.


Por esta altura foi decretado o ensino obrigatório da língua portuguesa em todas as escolas timorenses. A esta medida que Cinatti aplaudiu, responderam os timorenses com um aumento muito significativo da população escolar.


De regresso a Lisboa (1963) publicou estudos sobre as plantas e um tratado sobre a província de Timor.



Em 1966, num colóquio nos Estados Unidos pediu a protecção das jazidas pré-históricas e dos monumentos históricos que descobriu. Para evitar a delapidação do património cultural de Timor e para recolher amostras da presença de um elefante pré-histórico, a comunidade científica pressionou o governo português a enviá-lo a Timor.



Ruy Cinatti ficou, durante todo o mês de Agosto de 1966 (e pela última vez) em Timor.



De regresso a Lisboa e sentindo que o tempo lhe fugia, publicou vários livros de poesia em que o tema é Timor: “Um cancioneiro por Timor” (1968); “Uma sequência timorense” (1970); “Ali também Timor” (1973), “Paisagens timorenses com vultos” (1974); e “Timor-Amor” (1974).



Ruy Cinatti tem uma extensa obra poética em que encontramos paralelos com as paisagens por onde passou, o retrato da sua própria vida, o desencanto com o mundo que o rodeava e Timor, o lugar onde se encontrava consigo e com a natureza (... posso fazer qualquer coisa útil quer no campo científico quer no campo social, aqui em Timor, onde já sou irmão, por pacto de sangue, de muitos timorenses.”  (Carta a Jorge de Sena, ao recusar o convite que este lhe fez para ensinar agronomia no Brasil).



Em 1975 escreveu uma carta ao Diário de Notícias (que nunca chegou a ser publicada) onde chamou a atenção para o perigo que Timor corria, e que veio a confirmar-se meses mais tarde (7 de Dezembro de 1975) com o bombardeamento de Dili, a invasão e posterior anexação de Timor-Leste pela Indonésia.
Foi um rude golpe, do qual nunca mais chegou a recuperar.



Morreu a 12 de Outubro de 1986, com 71 anos de idade, vítima de um cancro pulmonar. Está sepultado no cemitério dos ingleses em Lisboa...



Acredito que Ruy Cinatti, por sua vontade, se sentiria tão bem num abraço dessa terra que tanto amou, descansando em paz à sombra de um tamarindeiro...


José Gomes


23 de Julho de 2004


 



Com este artigo que escrevi para a Comunidade Crocodilos Voadores em 2004 quero hoje,  25 de Outubro 2005, lembrar a memória de Ruy Cinatti que sinto que se está a perder nas brumas do tempo.


----------------------------------


 Dedico esta canção TIMOR (durante muitos anos chamei-lhe Andorinha de Asa Negra) a todos aqueles que, de alguma forma, tornaram possível o nascimento de Timor Lorosae, como nação livre e independente.

TIMOR
Xutos e Pontapés
4:42'



publicado por zeca maneca às 18:06
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1 comentário:
De anónimo a 25 de Outubro de 2005 às 23:04
Meu Deus, escreveste tudo! Confesso que desconhecia este senhor. Ignorância a minha, mas tu ensinaste-me neste genial post:) beijos e viva Timor Loro Sae!wind
(http://wind9.blogspot.com)
(mailto:sagit_126@hotmail.com)


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