BOM NATAL! BOM ANO NOVO!
(Discurso que sempre se repete, mas que nunca se cumpre)
Menino dormindo... / Silêncio profundo. / Benvindo, benvindo, / Salvador do Mundo! Noite.
Noite fria. / Mas que lindo que é! / De um lado Maria. / Do outro José. /
Um anjo descerra / A ponta do véu... / E cai sobre a Terra / A imagem do Céu! [1]
Este poema foi escrito naquele tempo em que todos nós – crianças e adultos – sentíamos ainda o “Espírito de Natal”.
Nos dias de hoje, Natal não passa de uma mera “palavra”, com significado igual ao daqueles dias de "qualquer coisa" que se comemoram nos 365 dias do ano.
Em Dezembro, as luzes coloridas dão novas cores e novos ritmos às árvores, às varandas, aos portais e às janelas das casas. No ar paira um espírito de festa, de pseudo-alegria e de mistério. As músicas natalícias ouvem-se em cada canto e esquina, adormecendo a razão de quem as escuta.
Toda a gente – rica e pobre - se acotovela diante dos escaparates e das montras deslumbrantes... Multidões irrompem pelas lojas, subjugadas aos deuses do consumismo, inebriadas pelas coisas inúteis que compram sem pensare muito menos sem precisar...
Neste mês finge-se que tudo é diferente:
— Diz-se “Bom dia”, com um sorriso no rosto, ao vizinho... – que é ignorado todo o resto do ano!
— Olha-se para os idosos com mais respeito e com um sorriso nos lábios, dá-se-lhes um pouco mais de carinho, de atenção, de amizade... - para, durante o resto do ano, continuar-se a ignorar a sua existência!
— Para os pobrezinhos, os “sem abrigo”, os marginalizados, os indigentes, os doentes... lá estão os nossos “primeiros”, “segundos” e “terceiros” a dar-lhes a anual “sopa de pedra”, entre um sorriso e um piscar de olhos ternurento (mas só para as câmaras dos média os focarem num grande primeiro plano!)... e, durante o resto do ano, continuam a ignorar que estes (pobrezinhos, “sem abrigo”, marginalizados, indigentes, doentes) existem e que continuam a precisar de comer, vestir, dormir e, sobretudo, de um trabalho que lhes permitam sobreviver com dignidade!
Por isso dei por mim a pensar:
Mas o tempo avança inexoravelmente e as pessoas continuam a caminhar, atarefadas, sem ter tempo, sequer, de olhar para o lado...
A época natalícia sucede-se ano após ano, com os mesmos gestos, os mesmos fracassos e as mesmas promessas. Fala-se de Fraternidade Universal, fala-se do Criador, fala-se de Jesus que nasceu numa manjedoura...
Porque não falar num Jesus mais adaptado a este mundo real?
Natal
Nasceu! / Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco, / e num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados, / Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada, / Os pés no asfalto negro, onde circulam carros de luxo: / Pedir boleia, pediram, mas ninguém viu ou quis ver, / Ou escutar o gesto...
Iam apressados para a ceia da noite, / Desbragada como um conta-quilómetros / E cheia de neblina e promessas.
Nasceu!
Num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados.(...) [3]
Finalmente é chegado o dia de Natal!...
"Hoje é dia de ser bom. / É dia de passar a mão pelo rosto das crianças / De falar e de ouvir com mavioso tom, / de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças".
"É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, / de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, / De perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, / de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria"
(...) [4].
Milhares de mensagens vão atravessar o ciberespaço nas vésperas e no dia de Natal, compondo coisas lindas nos mais de 9 milhões de telemóveis que inundam este país de contradições e do faz de conta!... para gáudio das operadoras que, assim, vêem os seus lucros subirem em flecha!
Este mesmo ritual vai-se repetir na noite de 31 de Dezembro!... Desta vez regado com espumante e ao som das 12 badaladas da meia noite, como manda a tradição! Frases, pensamentos, mensagens (melhor ou pior elaboradas) vão ser trocadas num desejo mútuo de tudo de Bom, muita Saúde, Paz, Fraternidade e Amor...
Mas a velha dúvida persegue-me!... e interrogo-me, o que como será possível desejar em 2005...
Tudo de Bom... — se irão subirão as rendas de casa, a electricidade, as portagens, os táxis, a água, os transportes públicos, o pão?!!!...
Tudo de Bom... — se vão continuar as falências, os despedimentos, o desemprego?!!!...
Muita Saúde... — com o sistema de saúde que temos?!!! Com a maioria do nosso povo auferindo um salário mínimo inferior a 400,00 euros?!! Serão suficientes para pagar os medicamentos, os honorários dos médicos, os tratamentos, os internamentos?!!!...
Paz... — com tanta instabilidade e tantas guerras à nossa volta e sem qualquer vontade política de lhes dar fim?!!!...
Fraternidade... — se impera a lei da selva na nossa sociedade, do vale tudo, da competitividade desenfreada e sem regras...
Amor para 2005... — se nem sequer há tempo para se DAR e muito menos para se poder COMPARTILHAR?!!!...
José Gomes
[1] “Natal”, poema de Pedro Homem de Mello.
[2] Excerto de “Quando um Homem Quiser”, poema de Ary dos Santos.
[3] Excerto do poema “Natal”, escrito na noite de Natal de 1952, pelo poeta Amândio César.