
Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for.
Este post deveria ter saído no dia em que Zeca Afonso teria feito 76 anos.
Vários contratempos fizeram com que a data do seu aniversário se apagasse da minha memória, facto que lamento...
Mas meu caro Zeca, compromissos que já tinha assumido levaram-me para outros lados a praticar aquilo que de mais importante aprendi contigo: ser solidário!
Mas outros amigos lembraram a tua voz, a tua força, o teu espírito, as tuas canções sempre actuais, a tua militancia...
O importante é que a tua memória esteja bem viva e presente nas novas gerações e que o teu exemplo seja uma alavanca para o Mundo que sonhaste.
1ª.CARTA A ZECA AFONSO
(Queixas)
Zeca
Que tristeza pensar que foi loucura
Lutar tanto tempo, se afinal
O esquecimento desfez toda a amargura
Todo o sofrimento e todo o mal!
E sofreste tu, por teres cantado
As lutas que devíamos lembrar
E por teres rido e por teres chorado
Por quem tinha medo de falar
Oh como dói ver que nas campinas
Vergadas por jugos diferentes
Continuam ceifando as Catarinas
Mas mais conformadas, mais descrentes
E o choro que existe nas palavras
Histórias que trazemos, já contadas
Memórias que não dão riso, mas pena
Ai a dor de serem de novo escravas
As gargantas já antes libertadas
Quando cantaram a Grândola Morena!
E esta imensa dor de ver traídos
Os ideais de Abril, renovação
Desse Mês-País, que fez história!
São agora angústia e são gemidos
Os cravos vermelhos da revolução;
Mais um Alcácer de bruma na memória!
Zeca,
Toma os meus olhos, são fonte sem água
Donde brotaram jorros de alegria
Na liberdade das paixões a arder;
Ai meu Amigo, esta imensa mágoa!
Nosso País mais uma vez se adia,
Toma os meus olhos, que eu não quero ver!
Maria Mamede