TEMPO DE INVERNO

"Neve em Setúbal - 29 Jan. 06" (cortesia Prof. A. Serra)
Tempo de Inverno
Batem leve, levemente
Como quem chama por mim
Abri os olhos ao ouvir o fustigar do vento, abanando as persianas baixadas
Fiquei quieto enquanto os meus olhos se habituavam ao lusco-fusco peneirado pelas
lâminas de plástico da persiana. Agucei o ouvido, tentando perceber o gemido do
vento e o leve bater da persiana na janela: - parecia um morse de dor dedilhado
por alguém do lado de fora
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim
Agucei ainda mais os ouvidos
Além do tictar na vidraça, acompanhado pelo gemer do
vento, senti e ouvi um suspiro aflitivo no meio daquela
sinfonia
Quem suspira, assim, aflitivamente,
Que se confunde vagamente
Com o gemido do vento
Saltei da cama e fui ver.
Um pássaro transido de frio e, quem sabe, de medo, batera
com a força do vento contra a persiana e enfiara as patitas
através das réguas desta e debatia-se contra a persiana
que lhe causava dor nas patas presas, agravada agora com o
susto do esguedelhado que abria a janela, tentando tirá-lo
com todo o cuidado daquela posição incómoda.
Segurei-lhe as patas com todo o cuidado e entreabri as
lâminas da persiana, conseguindo agarrar o corpo húmido da
ave e encostá-lo serenamente ao meu peito
Tentei limpar-lhe as penas molhadas e verifiquei-lhe as
patas, no meio de um piar aflitivo.
As patas pareciam-me estar boas.
Dei-lhe água e algumas sementes e os olhos do pássaro
brilharam quando se cruzaram com os meus.
Quando o senti mais calmo, as penas secas e verificando que
o vento amainara, levei-o até à porta da rua e, junto às
árvores, abri a mão, convidando-o a voar.
Sacudiu as penas, olhou para o céu, trocamos um olhar de
despedida e, com um piar entremeado de cantiga, alçou-se
no espaço, rumo às folhas mais altas das árvores.
Virei as costas e regressei a casa com frio, mas feliz!
José Gomes
31 Janeiro 2006
(Não tive a sorte de ver cair flocos de neve aqui na Maia, onde resido... Almeida Serra fez-me ficar com "raiva" enviando-me esta foto. Só o céu toldado e um frio de cortar à faca que nem a lareira, nem os aquecedores, nem as mantas conseguiam aquecer... batia no teclado do computador e bufava nos dedos. Temos realmente o tempo que merecemos... e dantes ainda corria atrás dos arco-íris! Mas há meses que não os vejo nem os sinto...).
Mas vem esta "lenga-lenga" para vos apresentar a música que está hoje nos meus ouvidos, embora nada tenha a ver com o tema: "Gracias a la vida", na voz da inesquecível Elis Regina.
Boa semana.
José Gomes
(Pôr do Sol - Dez 05 - Praia de Miramar - V. N. Gaia)