Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Movimentum - Arte e Cultura

Movimentum - Arte e Cultura foi criado em Novembro de 1993. Ao longo destes 14 anos desenvolvemos trabalhos nos campos da Poesia, Artesanato, Exposições e Certames Culturais. Este blog pretende dar-lhe a voz que tem direito.

Movimentum - Arte e Cultura foi criado em Novembro de 1993. Ao longo destes 14 anos desenvolvemos trabalhos nos campos da Poesia, Artesanato, Exposições e Certames Culturais. Este blog pretende dar-lhe a voz que tem direito.

Movimentum - Arte e Cultura

27
Mar06

NOITE DE POESIA EM VERMOIM...

zeca maneca

A próxima "Noite de Poesia em Vermoim..." é já no sábado, dia 1 de Abril 2006.

 

O tema é "ABRIL DAS ÁGUAS MIL..."

 

Do programa destaco hoje o meu artigo (profundo, mas meti água que me fartei!!!!):

 

Abril das águas mil…

 

Finais de Março…

Uma noite chuvosa a lembrar Abril, não fora o frio e o céu carregado de escuro!

Os faróis dos carros rasgam a cortina de água esparzindo, em todas as direcções, a que está acumulada no solo.

As árvores gemiam ao peso do vento, sacudindo dos seus ramos a água que as vergastavam!

Um ou outro transeunte, em fúria, atiravam para o chão os guarda-chuva esventrados pelo vento, acatando de má cara a bátega de água que molhava da cabeça aos pés.

 

Deixei o autocarro que parara na paragem a cem metros de minha casa. Mas não arrisquei abrir o guarda-chuva por duas razões:

- Primeiro, porque o comprara há pouco mais de uma semana na loja do chinês (tenho a certeza se o abrisse nestas condições de chuva/vento forte o pano abandonaria as varas metálicas, tal a força do vento!).

- Segundo, porque estava a uns escassos cem metros de minha casa. Era só uma questão de atravessar a rua… e com um pouco de sorte não seria um banho por aí além! …

 

Optei pela segunda hipótese… e em má hora!

 

Os bueiros não davam vazão às águas que já galgavam os passeios, fazendo da rua uma piscina com água agitada…

Mergulhei os pés na água fria, fustigada pelo vento que a atirava para as minhas calças e para a minha cara… Os meus óculos, rapidamente, se transformaram num aquário (só faltaram os peixinhos!).

Quando cheguei ao lado de lá da rua, à porta de casa, como por encanto a chuva parou, embora mantendo-se o vento a assobiar a pleno inverno.

 

Eu estava alagado até aos ossos!!!

 

Estamos em finais de Março! …

Com a promessa do Abril em Portugal, do Abril das águas mil! …

 

José Gomes

 

Até sábado.

Divulguem esta iniciativa do        ...

 

 

23
Mar06

EXPERIENCIA - NOVA PLATAFORMA

zeca maneca

                              

Esta é a primeira experiência que estou a fazer com a migração do blog para a nova plataforma do Sapo.

Gostaria da vossa opinião pois mudei templates... ahhh!! Quero agradecer à Sónia (Zia ou Coelha) toda a ajuda e paciência que me dedicou esta tarde. E o seu gosto e conhecimentos...

Obrigado, filhota!

 

18
Mar06

NATÁLIA CORREIA

zeca maneca

Natalia.jpg


Natália Correia




“Foi-me preciso descobrir que:

A lógica é a ciência de gerir os rendimentos da estupidez;
Os políticos não são inteiramente galinhas porque cacarejam e não põem ovos;
As pastas dos executivos levam dentro aranhas para urdirem as teias que nos imobilizam;
A família é um cardume de piranhas ao redor da carcaça de uma vaca
sagrada;
A sociologia é uma completa falta de humor perante a decadência;
Os gestores destilam um suor frio que nos constipa;
As nações içam as bandeiras para porem o falo a pino e masturbarem-se;
As esquerdas e as direitas resultam do pacto de não inverterem os papéis;
O socialismo é um estratagema para negar aos exploradores o direito ao desaparecimento;
O liberalismo é uma manha do Estado para forjar algemas com a liberdade;
Os intelectuais são uma chatice com que o Criador não contava;
A economia é adquirir-se o vício do fumo porque se comprou um isqueiro;
Dos vencidos não reza a história porque se renderam à razão;

Para concluir que:

Chegou a hora romântica dos deuses nos pedirem desobediência.
Faço-lhes a vontade. A partir de hoje, se alguém me quiser encontrar que me procure entre o riso e a paixão.
”

(10 Janeiro 1983)
"A Ilha de Circe", de Natália Correia
(excertos)



Abordar este furacão de Mulher é simplesmente um trabalho do outro mundo. Mas vou tentar sintetizar ao máximo... se alguém, mais interessado, a quiser conhecer mais profundamente, terá que recorrer às bibliotecas ou, então, a amigos que a conheceram pessoalmente! A sua vida foi como ela:


 - Interessante, Intrigante, cheia de Energia...



Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Ponta Delgada, em Fajã de Baixo, uma freguesia arreigada de tradições e mitos, onde a magia e o oculto se interligam.

Veio, ainda criança, estudar para Lisboa. Iniciou-se muito cedo na escrita. Foi uma figura muito importante da poesia portuguesa contemporânea, exercendo a sua actividade criadora como Poeta, Dramaturga, Cronista, Ensaísta, Deputada, Oradora, Tradutora, Editora...

Mas foi na Poesia que o seu talento vanguardista e independente ganhou grande expressão o que lhe assegurou um lugar de destaque na cultura portuguesa da segunda metade do século XX.

Foi uma figura que se destacou na luta contra o fascismo, tendo apoiado a candidatura à Presidência da República do General Humberto Delgado.

A partir daqui viu vários dos seus livros serem apreendidos pela censura!

Frequentou, juntamente com Vitorino Nemésio, Ary dos Santos, Vinícius de Morais, David Mourão Ferreira, e outros, as recepções dadas pela Amália Rodrigues.

Mas cedo se afastou da fadista, não só pela sua postura de vida – Amália revolucionou o mundo cantando Camões e Natália desafiou o regime de Salazar, escrevendo “O Homúnculo”, peça sobre o ditador –, mas também pelas suas posições religiosas: Amália Rodrigues, segundo Natália, era uma beata que já não podia suportar mais; Natália Correia era uma herege insuportável, dizia Amália.

Foi deputada à Assembleia da República pelo P.S.D. (I e II Legislaturas)  e pelo P.R.D. na V Legislatura.

Foi uma lutadora pela defesa das liberdades e garantias da Mulher.

Mulher inigualável, nos caprichos e nas iras, na coragem e na esperança! Cantava e dançava, declamava, discursava e improvisava, de tal maneira que cada improviso seu chegava às raias do satírico, da polémica... (recordo, em plena Assembleia da República e de improviso o “Poema a João Morgado”, deputado do CDS, quando estava em debate a Lei sobre a Legalização do Aborto e um outro que declamou durante o debate da Lei contra o Alcoolismo, que marcaram bem a sua posição perante o mundo e a sociedade).

A partir de 1962, com Dórdio Guimarães (seu 4º marido), trabalhou para o cinema e televisão.

Com Isabel Meyrelles abriu o “Botequim”, um pequeno bar, espaço de convívio e tertúlia, onde se encontraram grandes vultos das letras e das artes do País.

Este espaço marcou a vida cultural e política portuguesa. Por aqui passaram projectos de arte e utopias, estratégias e revoluções! Pelas suas mesas, entre rosbifes e champanhe, entre música e declamações, debates e canções, viagens e fantasias, generais e presidentes, loucos e amantes, romances e ficções... que foram feitos e desfeitos, sem qualquer desânimo ou remorsos!

Desde muito cedo Natália Correia enveredou pelos universos do fantástico, do poético, do inexplicável, do contacto com os mortos, com extraterrestres e outras entidades.

Uma noite, no Botequim, em 1993, alguém que sabia que Natália iria morrer em breve, sussurrou a triste notícia a um amigo. Esta, suspeitando de algo errado, perguntou o que se passava:

- Vais ter de deixar de escrever por uns tempos... precisas descansar!

- Então isso significa que vou morrer?

Em 16 de Março de 1993, a poetisa sofreu, ao chegar a casa, um acidente cardiovascular e morreu em poucos minutos.

A vigília do seu corpo, na Casa dos Açores, levou de todos os cantos do País, durante dois dias e duas noites, milhares de pessoas e de flores! Por lá passaram amigos e inimigos, músicos e cantores, ministros e intelectuais, tunas e artistas, vadios e desportistas, autarcas e videntes, astrólogos e sacerdotes que olharam o esquife aberto com ela lá dentro, serena, muito branca e feliz, finalmente transformada em deusa pagã.

Ao terceiro dia foi cremada no cemitério do Alto de S. João.



“(...)
Basta o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio."


In “Passaporte” (1958).

José Gomes
16 de Março 2006


-----------------------------------
Procurei o poema de Natália Correia "Queixa das almas jovens censuradas" interpretado por José Mário Branco.
Não o descobri... e não vou perder mais tempo à procura!

Fui descobrir uma versão da Natália, de Lope de Vega, interpretada por José Afonso....

do CD: Contos Velhos Rumos Novos
"No Vale de Fuenteovejuna"


Na voz inesquecível de José Afonso


3' 35''


-------------------------------------------


 


 

10
Mar06

Lembrei-me hoje de ANTÓNIO NOBRE...

zeca maneca

Nobre 3.jpg 

António Nobre

Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazulli e coral!


António Nobre nasceu no Porto numa manhã de Agosto de 1867.


Filho de uma família de recursos, estudou no Porto e tentou tirar o curso de direito em Coimbra. Inadaptado ao ambiente estudantil e à “fútil coimbrice desta cidade” acabou por terminá-lo em Paris.


Rapaz alto, magro e muito pálido, frágil e egocêntrico, encontrou o refúgio da saudade, do fatalismo e da morte na imensidão do mar, fazendo longas caminhadas desde a Foz do Douro até Leça da Palmeira. Foi aqui que passou as suas férias, irmanando-se com a Natureza, aprendendo com o mestre Oceano, seu confidente e amigo, com as histórias dos naufrágios e das tempestades...


A praia de Leça da Paslmeira, nessa altura, era frequentada pela fina flor da colónia inglesa então radicada no Porto. Foi aqui que conheceu os seus primeiros amores, viveu os seus romances e afagou o calor loiro dos cabelos doces das britânicas...


Desde muito novo, nos rochedos da Boa Nova batidos pela espuma das ondas do Atlântico, ou dentro de pequenos botes baloiçando na candura das águas, António Nobre declamou os seus versos, tendo como ouvintes atentos o oceano, ou as lindas moçoilas que lavavam no “Rio Doce” (Rio Leça, nessa altura límpido e pululante de vida).

“Oh Rio Doce! Túnel d’água e de arvoredo
Por onde Anto vogava em vagão dum bote...
E, ao Sol do meio-dia, os banhos em pelote
Quando íamos nadar, à Ponte do Tavares!
”

A sua poesia reflecte os conhecimentos, as crenças, as lendas, as músicas, as danças, as bruxas, as almas-penadas... conceitos que lhe foram transmitidos pelos pescadores e pelos aldeões. Vemos, sentimos e ouvimos as sachas, as ceifas e as vindimas da sua aldeia no Douro; sentimos o dedo da morte nos carpinteiros de caixões, nos enterramentos, nos cavadores e nos coveiros...

A sua obsessão pelo fim está retratada nos pedintes, nos paralíticos, nos gangrenados, nos moribundos que pululam a sua obra poética.

Influenciado pelos poetas e artistas europeus da sua época (especialmente britânicos e franceses) tornou-se uma figura típica, exótica na sua maneira de se vestir, passeando-se pelos areais de Leça até à Praia da Memória, envergando uma indumentária exuberante, adornos extravagantes, um livro debaixo do braço, com os cabelos pretos em desalinho e um pequeno buço aparado que aguçava ainda mais o seu rosto esguio.

Em Coimbra influenciou e foi influenciado por um pequeno grupo de amigos, intelectuais, poetas e sonhadores da época. Não se misturou com a chamada “boémia tradicional coimbrã”. Formou o seu próprio ciclo de intelectuais que o achavam “insolente como um príncipe e adorável como uma criança, olhos como estrelas...”.

Na última semana em Coimbra, antes de partir para Paris, deixou o Penedo da Saudade onde vivia, instalando-se numa das torres da muralha medieval, a Torre de Sub-Ripas, mais tarde conhecida por Torre d’Anto, hoje ex-libris da cidade. É desta torre que António Nobre descreveu a Coimbra outonal:
“... essa paisagem religiosa, milagrosa, o Mondego sem água, os choupos, meus queridos corcundas, sem folhas e vergados pelos anos, pareceu-me que estava num mundo extinto, todo espiritual, onde só um homem vivia, que era o Anto encantado na sua Torre”.

A tuberculose que o viria a vitimar e de que cedo se apercebeu, reflectiu-se na sua obra. A morte, a degradação, a tristeza e a solidão estão sempre presentes nos seus poemas, assim como a tragédia, os amores não concretizados, a solidão ...

Tentou a cura da sua "tísica galopante" em todas as principais cidades europeias, mas a doença, implacável, não respondeu aos tratamentos e venceu-o.

Em 18 de Março de 1900, na Foz do Douro onde vivia e com apenas 33 anos de idade, António Nobre, o autor de , deixou a sua costa de areias doiradas, os seus pôr-do-sol de cores matizadas, o seu mar verde esmeralda pintalgado com auréolas prateadas de espuma, os seus rochedos agrestes da Boa Nova e foi-se aconchegar “… na ‘Cova’ onde a Mãe o esperava para o prometido reencontro…”.

"Aqui, espero-te, há que tempo enorme!
Tens o lugar quentinho…".
--------------------------------------------------------------------------
A Jó e eu dizemos com uma certa regularidade, mais ao menos teatralizado, o poema que se segue. aAs pessoas que o ouvem gostam... e nós também!
---------------------------------------------------------------------------



MALES DE ANTO
(Meses depois, num cemitério)



ANTO:
Olá, bom velho! É aqui o Hotel da Cova,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova…
(Como eu estou molhado! É do luar…)

Vamos! Depressa! Vem, faz-me a cama,
Que eu tenho sono, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

O Coveiro:
Os quartos, meu Senhor, estão tomados,
Mas se quiser na vala (que é de graça…)
Dormem, ali, somente os desgraçados,
Tem bom dormir… bom sítio… ninguém passa…

Ainda lá, ontem, hospedei um moço
E não se queixa… E há-de poupá-lo a traça,
Porque esses hóspedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.




ANTO:
Escassa, sim! Mas tenho ossada ainda,
Enquanto que a Alma, ai de mim! Nada tem…
Guia-me ao quarto… (a Lua vai tão linda!)
Dize-me: quantos anos me dás? Cem?

Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
Os teus mortinhos, sim! Dormem tão bem:
«Dormi, dormi! Que a vossa Mãe não tarda,
Foi lavar à Fontinha de Belém…»




O Coveiro:
Aqui. Fica melhor do que em 1.ª:
Colchão assim não acha em parte alguma!
Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumaúma…

«Colchão de raízes e de folhas, liso,
Lençóis de terra brandos como espuma,
Dá-los-ei ao rol, no Dia do Juizo...»
Pronto. Quer mais alguma coisa? Fuma?


 


ANTO:
Mais nada. Boas noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão abrir…
Faz tanto frio!) Apaga a luz! (Que importa?)
A roupa chega para me cobrir…

Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir,
Tu não me venhas acordar, embora
Chamem… Ah deixa-me dormir, dormir!

             (António Nobre, in “”)








10 de Março de 2005


José Gomes


 -----------------------------------------




"Poema"
Francisco Fanhais
Ilídio Rocha/Francisco Fanhais
CD: Dedicatória
-----------------------------------------


08
Mar06

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

zeca maneca

diamulher.gif


Dia Internacional da Mulher


 


As mulheres do Século XVIII estavam submetidas a um sistema desumano de trabalho, com jornadas de 12/16 horas diárias, espancamentos e ameaças sexuais.


No século XXI, apesar das lutas e das denúncias efectuadas, a MULHER continua a ser descriminada e vítima das mais variadas sevícias e explorações, mesmo naqueles países ditos civilizados.


 


8 DE MARÇO

As comemorações do dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, estão ligadas às acções desenvolvidos pelas mulheres que lutaram por melhores condições de trabalho, por uma vida mais digna e por uma sociedade mais justa.


Esta luta foi-se desenvolvendo com avanços e recuos ao longo da História, pelas mulheres que souberam resistir ao machismo e à discriminação, mesmo com o sacrifício das suas vidas.

Raízes históricas e sociais

As raízes históricas e sociais da opressão feminina perdem-se nas noites do Tempo.


A degradação da condição feminina deu-se com a destruição do “clã matriarcal” que foi substituído pela sociedade dividida em classes.


Naquele (clã matriarcal), os adultos dos dois sexos produziam não só para se manterem, mas também para alimentar e proteger os filhos de toda a comunidade onde estavam inseridos, uma vez que a família, tal como hoje a conhecemos — um núcleo isolado que vive expressamente voltado para si mesmo — não existia e as necessidades eram compartilhadas colectivamente. Não havia distinção de classes nem opressão social sobre a mulher.


Com o desenvolvimento da sociedade de classes (escravismo, feudalismo e capitalismo) deu-se início à exploração do homem pelo homem e o trabalho doméstico caiu exclusivamente sobre a mulher. O capitalismo converteu a mulher em operária, muito mais fácil de ser explorada.


Os ideólogos burgueses e a Igreja criaram as instituições “Casamento” e “Família”. Coube ao Estado e a estas instituições controlar as necessidades de sexo (Casamento) e da procriação (Família).


A Família, como instituição, é um produto da história humana. Com o advento da sociedade dividida em classes, esta adquiriu um papel bem definido.


Por exemplo, os juristas da Roma antiga criaram o princípio de “todo o poder ao pai” que formalizou as leis referentes à propriedade e ao matrimónio, ambos declarados inseparáveis. O casamento era reconhecido somente entre os patrícios, cuja finalidade era manter e perpetuar para os filhos as propriedades acumuladas até então.


A extensão do casamento a todas as classes sociais foi já obra da civilização burguesa, ao surgirem as relações de tipo capitalista, nas quais cada família funcionava como uma pequena empresa particular.


Reportando-nos a estudos recentes da Organização Internacional do Trabalho, a mulher é duplamente explorada no trabalho e no lar. 46% das mulheres trabalham 80 horas por semana e têm salários mais baixos que o dos homens. As mulheres casadas e/ou com filhos são alvos fáceis de discriminação não só na admissão ao primeiro ou a novos empregos, mas também são as principais vítimas do trabalho temporário (especialmente nestes últimos 15 anos).


A título de exemplo, reparemos na frieza puramente empresarial, desprovida de qualquer sentimento humano, mas tão cheia de preconceitos de classe e dirigida especialmente à mulher trabalhadora, neste simples e cínico comentário dum patrão dos tempos modernos:


— “Os trabalhadores homens são demasiado inquietos e impacientes para fazer um trabalho monótono e sem perspectiva de carreira. Não se submetem à disciplina, sabotam as máquinas e inclusive ameaçam o supervisor. Mas as mulheres são mais dóceis, mais manobráveis e quando muito, apenas choram e gritam. Mas nós podemos bem com elas"...


Outra “descoberta” da filosofia burguesa foi que o Casamento e a Família seriam a melhor das organizações para satisfazer as necessidades humanas.


No entanto, estudos recentes, apontam o casamento como a instituição onde a mulher mais sofre com a violência doméstica e o alcoolismo (63% das agressões físicas contra a mulher acontecem no lar!).


A grande parte dos direitos femininos foi conquistada, graças às lutas das trabalhadoras e à sua consciência de classe.


Nos países capitalistas esses direitos só foram conseguidos depois de conquistados em alguns países da Europa, da União Soviética e de Cuba, onde as mulheres tiveram conquistas históricas, como a criação de escolas, creches, direito ao voto, divórcio e aborto gratuito.


A este avanço nota-se, nestas últimas décadas, um imenso retrocesso nas condições de vida das trabalhadoras, não apenas nestes países (aumento da jornada de trabalho, aumento do analfabetismo, do desemprego e da prostituição). Muitos países aproveitam para lançar uma ofensiva brutal sobre as conquistas sociais e laborais conquistadas pelos trabalhadores, intensificando ainda mais a repressão sobre os sectores mais segregados da população, particularmente sobre as mulheres, os negros e os homossexuais.

O Dia Internacional da Mulher – sua perspectiva histórica

Em 1789, com o advento da revolução francesa, as mulheres reivindicaram melhoria das condições de vida e de trabalho, a participação política, o fim da prostituição, o acesso à instrução e a igualdade de direitos.

Em 1791, Olympe de Gouges apresentou a "Declaração dos Direitos da Cidadã", onde reivindicava o "direito feminino a todas as dignidades, lugares e empregos públicos segundo as suas capacidades". Defendeu ainda que "se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela também tem o direito de poder subir à tribuna".


Como resultado desta “rebeldia” Olympe de Gouges foi julgada e condenada à morte. Em 3 de Março de 1793 foi guilhotinada por "ter querido ser um homem de estado e ter esquecido as virtudes próprias do seu sexo".


Nesse mesmo ano, as associações femininas francesas recentemente criadas, foram proibidas.

Na segunda metade do século XVIII, as grandes transformações científicas e sociais resultantes da Revolução Industrial, trouxeram uma série de modificações. Os industriais, como forma de baixar os salários e aumentar os lucros, apostaram forte no trabalho feminino. A mulher operária foi, então, obrigada a fazer jornadas de trabalho que chegavam até às 17 horas diárias. Além de receberem salários que chegavam a ser 60% inferiores ao dos homem, trabalhavam em condições doentias, submetidas a espancamentos e ameaças sexuais.

Em Inglaterra, como exemplo do ambiente fabril da época, as operárias da tecelagem Tydesley trabalhavam 14 horas por dia a uma temperatura de 29º, num local húmido, com portas e janelas fechadas. Na parede estava afixado um cartaz que proibia, entre outras coisas, a ida à casa de banho, beber água, abrir as janelas ou acender as luzes.


Como resposta a estas situações desumanas de trabalho surgiram na Europa e nos Estados Unidos manifestações operárias contra estas condições.

Em 1819, depois de um confronto entre a polícia e os trabalhadores, a Inglaterra aprovou uma lei em que a jornada de trabalho das mulheres e dos menores dos 9 aos 16 anos foi reduzida para 12 horas.

Em 1824, o parlamento inglês aprovou o direito de organização dos trabalhadores. Assim, a Inglaterra tornou-se o primeiro país a reconhecer o direito à livre associação dos trabalhadores, nascendo os sindicatos como forma de organização de classe.

No dia 8 de Março de 1857,
a luta desenvolvida pelas operárias têxteis de Nova Iorque pela redução do horário de trabalho, por melhores salários e condições de vida mais justas, transformou-se num marco importante.
129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton pararam o seu trabalho, reivindicando o direito à jornada de 10 horas.

A polícia, a mando dos patrões, reprimiu-as violentamente, fazendo com que as operárias se refugiassem dentro da fábrica. Os donos da empresa, juntamente com a polícia, trancaram-nas dentro da fábrica, uma indústria têxtil mal ventilada que ocupava os 3 últimos andares de um prédio de 10 andares e atearam-lhe fogo. O soalho coberto de materiais inflamáveis e de lixo que se amontoava por todos os cantos, sem saídas de incêndio, foi rapidamente pasto de um grande incêndio que envolveu 500 mulheres jovens, a maior parte imigrantes judias e italianas.


Quando os bombeiros chegaram já 147 mulheres tinham morrido carbonizadas ou estateladas na calçada da rua, para onde saltavam, ao tentar escapar das chamas.


No funeral das operárias, a líder sindical Rosa Scneiderman organizou um comício com 120.000 trabalhadoras para lamentar “o assassínio bárbaro, frio e calculista das 147 trabalhadoras” e solidarizarem-se com todas as mulheres trabalhadoras.

Em 3 de Maio de 1908, em Chicago, comemorou-se o primeiro "Dia da Mulher”, que foi presidido por Lorine Brown. Participaram neste comício mais de 1.500 mulheres que denunciaram a exploração e a opressão a que eram submetidas. Defenderam a igualdade dos sexos, a autonomia das mulheres e o voto feminino. Foi reivindicada a igualdade económica e política das mulheres.

Em 28 de Fevereiro de 1909, em Nova Iorque, comemorou-se o "Dia da Mulher”. Foi uma actividade organizada pelo Comité Nacional das Mulheres Socialistas. O tema desta jornada de luta foi a defesa do voto das mulheres, a sua emancipação, pela jornada de 10 horas de trabalho e pela a marcação da comemoração anual do "Dia da Mulher” para o último domingo de Fevereiro.

Desde Novembro de 1909 a Fevereiro de 1910 os operários têxteis de Nova Iorque desencadearam grandes acções de massas e greves. 80% dos grevistas eram mulheres e esta terminou 12 dias antes do "Dia da Mulher” (27 de Fevereiro). Esta foi a primeira grande greve das mulheres trabalhadoras em que foram denunciadas as condições de vida e de trabalho. Muitas destas operárias participaram no "Dia da Mulher” e engrossaram a luta pelo direito ao voto das mulheres (que foi conquistado em 1920, dez anos depois, nos Estados Unidos).

Em Agosto de 1910, durante a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada na Dinamarca, a activista pelos direitos femininos e dirigente do Partido Social Democrata Alemão, Clara Zetkin, propôs o dia 8 de Março como “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem “ao confronto heróico das tecelãs de Nova Iorque que foram vítimas do incêndio de 8 de Março de 1857”.


Este dia passou a ser comemorado em todo o mundo como símbolo de resistência operária e como forma de mobilizar amplas massas femininas contra a opressão capitalista.

Em 1913, na Rússia, sob o regime czarista, foi realizada a “Primeira Jornada Internacional das Trabalhadoras pelo Sufrágio Feminino”. As operárias russas que participaram nesta Jornada Internacional em S. Petersburgo foram violentamente reprimidas.

Em 1914, na Rússia, as organizadoras da Jornada ou do Dia Internacional das Mulheres foram presas, o que tornou impossível qualquer comemoração naquele ano.

No dia 8 de Março de 1914, na Alemanha, o “Dia Internacional da Mulher” foi comemorado sob o tema do direito ao voto para as mulheres.

Em 23 de Fevereiro de 1917 (8 de Março, segundo o calendário ocidental), S. Petersburgo foi palco de uma grande manifestação de operárias russas que protestavam contra a guerra, contra a fome e contra o czarismo.


Esta foi o rastilho de um processo de grandes mobilizações e greves que vieram precipitar o início das acções revolucionárias que tornaram vitoriosa a revolução russa.

Em 1921, na Conferência Internacional das Mulheres Comunistas uma camarada búlgara propôs o dia 8 de Março como data oficial do Dia Internacional da Mulher, lembrando a iniciativa das mulheres russas.

A partir de 1922, o “Dia Internacional da Mulher” passou a ser celebrado, em todo o mundo no dia 8 de Março.


 


José Gomes


8 de Março 2006


----------------------------------
Lembrando Catarina Euémia (52 anos - 1954/2006)
Foi a 19 de Maio de 1954, faz agora 50 anos, que Catarina Eufémia foi assassinada em terras de Baleizão pelas forças do regime fascista.
Lutava por pão e trabalho e tornou-se um símbolo da resistência do proletariado rural alentejano à repressão e à exploração do salazarismo e, ao mesmo tempo, um símbolo do combate pela liberdade e da emancipação da mulher portuguesa.
Nos tempos que correm, o exemplo de Catarina Eufémia continua a inspirar homens e mulheres que lutam, ainda, pelo fim da exploração, por uma sociedade mais justa e fraterna.

Zeca Afonso e o seu "Cantar Alentejano"...
------------------------------------------------

01
Mar06

A propósito de narcisos...

zeca maneca

e esta.jpg
A propósito de narcisos…


 


Realmente é muito difícil pegar num tema como este. Porque de “narcisos” além das lendas, mal conheço a flor…


Mas como a minha imaginação é um poço sem fundo…

A minha filha construiu uma casa em plena montanha. Nos e-mails que trocávamos não se cansava de cantar loas à sua montanha, à sua casa, e à paisagem deslumbrante que desfrutava todos os dias.

Há dias insistiu tanto para que fosse ver algo tão lindo que nascera na montanha que resolvi aceder ao seu convite.


Escolhi logo um dia chuvoso e gelado para subir a serra! Quando comecei a subi-la um manto envolvente de nevoeiro fez-me quase desistir da viagem, pois não tinha a mínima vontade de a fazer. Mas já estava perto da sua casa, encolhi os ombros, agarrei mais o volante do carro, aumentei a temperatura do habitáculo e prossegui, agora mais lentamente, pois a estrada molhada estava perigosa.

Depois de um abraço disse-lhe logo que não ia demorar muito tempo, pois com aquele nevoeiro, aquela chuva e aquele frio nada que pudesse existir na montanha valeria a viagem que fizera.

A minha filha sorriu, levou-me para dentro de casa, tirou-me o casacão enquanto me sentava num sofá diante da lareira.

- Vais almoçar e depois, como eu sei que o tempo vai melhorar, vais comigo ver um espectáculo magnífico – disse-me ela, enquanto se dirigia para a cozinha.

Almoçamos, e o tempo passou-se entre o matar saudades, ver os seus trabalhos e quando dei conta de mim era já noite cerrada.

Adormeci e acordei de manhã, ao som do chilrear dos pássaros e à luz do sol que entrava pelo quarto dentro.

- Papá – disse-me ela, entrando pelo quarto – hoje está um dia magnífico para ires ver a minha montanha.

Depois do pequeno-almoço e de vestir uma camisola quente, saímos e subimos até ao cume, por um caminho coberto de folhas de pinheiro. Estes rodeavam-nos com o seu cheiro característico. A paz e o silêncio do lugar começaram a encher-me o espírito.

Do alto da montanha deixei escapar uma expressão de deslumbre ao contemplar os narcisos, que em torrentes de beleza radiosa desciam para o vale. Era uma profusão de cores – do azul-turquesa, do pálido marfim, do verde mais escuro, do amarelo sol – desciam como um tapete radioso diante de nós.

Aqui e ali as tulipas, com as suas cores lindas rivalizavam nos tons coloridos com as orquídeas…

No ar pairava um leve cheiro a Primavera!...

O cheiro que levei, mais tarde, para casa, extasiado, com o coração quente e paz na alma, agradecido pela beleza que a mãe natureza me proporcionara.

Obrigado, por este dia lindo, minha filha.

José Gomes


1 de Março 2006

----------------------------


Tema de "The dear hunter"
The Shadows
3,26 '
-------------------------

 


 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2007
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2006
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2005
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D