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A Revolução dos Cravos
Para que nunca se esqueça, vou recordar os dois últimos anos que antecederam a Revolução dos Cravos:
Em 1 de Janeiro 73, o padre Alberto presidiu à vigília pela Paz. A capela do Rato, em Lisboa, foi cercada e invadida pela Pide e os seus ocupantes foram desalojados à força; o padre Alberto foi destituído das suas funções;
Em 9 de Março 73, as Brigadas Revolucionárias fizeram explodir bombas no Distrito de Recrutamento de Lisboa e nos Serviços Mecanográficos do Exército;
Em 4 de Abril 73, em Aveiro, no III Congresso da Oposição Democrática, foi reclamado o fim da guerra colonial e a instauração das liberdades democráticas. Foram lançados cães, a policia, a GNR e a Pide para reprimirem de forma brutal, violenta e selvática os congressistas, convidados e assistentes;
Em 1 de Maio 73, as Brigadas Revolucionárias fizeram explodir bombas no Ministério das Corporações;
Em Dezembro 73, foi escolhida a Coordenadora do Movimento das Forças Armadas. Neste mesmo mês foram presos pela Pide 170 estudantes numa reunião na Faculdade de Medicina de Lisboa;
Em Janeiro de 1974, a BBC falou de um golpe de estado na forja, de inspiração dos ultras do regime e que seria comandado por Kaulza de Ariaga. Este golpe visava matar Costa Gomes e Spínola e instaurar em Portugal um regime ainda mais violento. Este golpe de estado foi abortado pelo major Fabião que o denunciou numa aula do Instituto de Altos Estudos Militares;
Em Fevereiro 74, o general Spínola publicou o livro “Portugal e o Futuro” que se esgotou rapidamente;
Em 5 de Março 74, em Cascais, 200 delegados do Movimento das Forças Armadas marcaram a acção militar para o dia 25 de Abril;
Em 9 de Março 74, o Governo, pressionado pelos ultras, pelo mal-estar que as citações do livro de Spínola causou na opinião pública e nas forças armadas, decretou o estado de alerta em todos os quartéis.
Américo Tomás, presidente da República, exigiu a Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros, a exoneração de Spínola e de Costa Gomes.
Marcello assumiu a responsabilidade pela saída do livro e pediu a demissão dos seus cargos, que não foi aceite.
Após este incidente, 120 oficiais-generais que passaram à História como a “Brigada do Reumático”, à boa maneira medieval, foram prestar fidelidade e lealdade ao Governo — Spínola e Costa Gomes, faltaram!
Em 16 de Março de 74, uma coluna do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha avançou sobre Lisboa.
Isolados, regressaram à Unidade.
Foram presos 200 militares.
Otelo Saraiva de Carvalho começou, então, a planificar a estratégia do golpe. Redigiu o Plano Geral de Operações a ser aplicado na semana de 20 a 27 de Abril;
Em 15 de Abril, foi entregue a Otelo um desenho do forte de Caxias elaborado por Jorge Sampaio;
Em 21 de Abril, foram marcadas as diversas missões a cargo das unidades militares que participaram na acção da madrugada do dia 25.
Em 22 de Abril, Otelo e Costa Martins asseguraram os contactos nas estações de rádio.
Foram indicadas a senha, contra-senha e as horas em que estas seriam transmitidas:
— “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, em 24 de Abril, às 22H55, nos Emissores Associados de Lisboa;
— “Grândola Vila Morena”, interpretada por José Afonso, às 0H20 da madrugada de 25 de Abril, na Rádio Renascença.
(…)
Trinta e dois anos se passaram…
Dos ideais de Abril — Liberdade, Liberdade de Associação, Democracia, Pão, Paz, Habitação, Saúde, Trabalho, Educação — o que é que ainda hoje nos resta?
Será que Abril foi apenas um SONHO de meio milhar de idealistas?!!!
José Gomes