Sexta-feira, 9 de Março de 2007
Um abraço, professor...





Poema do alegre desespero

 
Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
 
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.
 
Compreende-se.
 

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto

(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)

com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,

e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,

e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,

e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,

que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro,
e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
 
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.
 
Compreende-se.
 
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
 
Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
 
E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
 
 
António Gedeão


 
 

sentimento: perdido no meio da macacada!
música: "Poema da Malta das Naus" - Manuel Freire / A. Gedeão
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publicado por zeca maneca às 22:43
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