Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007
ZECA AFONSO - Crónica de uma morte anunciada




ZECA AFONSO

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

 

Em 23 de Fevereiro de 1987, faz hoje 20 anos, em pleno Inverno, no Outono da vida, morreu Zeca Afonso.

 

Sem pé-de-meia, sem fundo de maneio, sem saco azul, sem subsídios, sem ajudas de custo, sem reforma.

 

Morreu como sempre viveu, pobre, à 3ª badalada da madrugada de 23 de Fevereiro. Vítima de esclerose lateral niotrópica. Num leito anónimo do hospital de Setúbal, acontecia o triste epílogo duma morte anos antes anunciada: morria o poeta, morria o cantor, morria o amigo, morria o companheiro, morria o Zeca.

 

Enquanto galegos, bascos e madrilenos cirandavam numa roda-viva, homenageando o segrel, os portugueses reunidos na praça da indiferença e do egoísmo esqueciam-se no crepúsculo da sua vida. "Estou sozinho no mar negro sem medo à noite cerrada. Ó minha mãe, minha mãe, minha mãe, minha amada".

 

Foi no povo, nos seus anseios e nas suas raízes, nas verdadeiras raízes deste caleidoscópio de gentes, de costumes e de raças, que o cantor encontrou a razão, as razões de muitas das suas cantigas.

 

Nasceu em Aveiro a 2 de Agosto de 1929. Frequentou a escola primária em Belmonte. Terra que lhe merecia especial carinho. "Ó altas fragas da serra donde o penedo caíu ninguém diga o que não sabe, nem afirme o que não viu".

 

Estudou em Coimbra onde bebeu o néctar divino das noites da velha alta. Noites de boémia, noites de luta, noites de contestação, noites de esperança e qual cavaleiro-trovador não faltava aos centenários das repúblicas, nas festas da primavera ou mesmo num simples aniversário cantando e criando laços de amizade, até entre homens que pensavam de maneiras bem diferentes.

 

Foi lá, em Coimbra, na "Real República dos Corsários das Ilhas", à entrada da Rua da Matemática, nos primórdios dos anos 60 que ouvi o Zeca Afonso dedilhar as primeiras notas de "Os Bravos", "Soldadinho", "Morte que mataste Lira" e de outras canções do folclore açoreano que os "Corsários das Ilhas", os de bom e os de mau ouvido, cantavam em coro nas noites de temporal quando desciam aos "Porões da Nau" e bebiam sangria e vinho do Pico para empurrar torresmos e linguiça que vinham do outro lado do mar, religiosamente embalsamados em alva banha de porco.

 

Depois, depois era só acrescentar um curto estribilho sobreposto aos acordes duma escala espanhola.

 

Homem do Povo, nunca se cansou de cantar para o seu Povo. Com a mesma atenção escutavam-no ricos, escutavam-no pobres e enquanto a voz cristalina do Zeca se escoava como metal incandescente por becos e ruelas estreitas, uma lágrima de ternura resvalava à sucapa dos olhos baços da velha dor do Augusto barbeiro e de tantos outros que o amavam.

 

Lá, no rés-do-chão da casa que foi em tempos do padre e depois virou "República dos Corsários", no quarto do Luban sob o olhar atento de Antero de Quental imortalizado num punhado de versos pintados a negro no fundo branco de uma parede, enquanto Mário Silva, o Topi e outros pintores daquela época desenhavam e coloriam decretos contestatários, o Zeca temperava na forja do seu descontentamento o aço das canções do folclore açoreano, com o mesmo afinco e com o mesmo carinho com que temperava as canções da Beira Baixa, do Minho, de Trás-os-Montes, do Algarve e do Alentejo que tanto, tanto amava. "Chamava-se Catarina o Alentejo a viu nascer, Serranas viram-na em vida, Baleizão a viu morrer".

 

Só quando os alvores da madrugada violavam a cidade adormecida e os primeiros raios de sol beijavam o cocuruto da torre da Universidade o segrel que toda a santa noite peregrinara pelos "Galifões", pelos "Rais-Te-Parta", pelos "Incas", pelos "Bota-a-Baixo", descia até à Sé Velha, olímpia da Lusa Atenas, terminando nos "Cágados" ali a dois passos mesmo em riba do "Quebra-Costas".

 

Poeta de vanguarda, músico, cantor e compositor, cantou o Fado de Coimbra, cantou a Balada, cantou a Canção de Intervenção. "Cantai bichos da treva e da aparência, na absolvição por incontinência, cantai, cantai no pino do inferno, em Janeiro ou em Maio é sempre cedo. Cantai cardumes de guerra e da agonia neste areal onde não nasce o dia".

 

Cantou para ricos, cantou para pobres e sempre no mesmo tom. Cantou para galegos, cantou para bascos, cantou para flamengos, cantou para sul-americanos, cantou para índios, cantou para negros, cantou para cabo-verdeanos, cantou, cantou sempre, até que a doença lhe amarrou a voz e aos poucos lhe roubou a vida. "Fui cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor".

 

Sem clamar vingança contra os que, no crepúsculo da sua vida, o apunhalaram na praça do silêncio e do egoísmo, tal como os irmãos Vicários cobardemente apunhalaram Santiago Nazara à porta de sua mãe Plácida Linero, às 3 da madrugada, numa cama anónima do hospital de Setúbal, morreu o Zeca Afonso.

 

Morreu como sempre viveu: - sem pé-de-meia, sem fundo de maneio, sem saco azul, sem subsídios, sem ajudas de custo, sem reforma, sem nada.

 

Neste dia relembrar o Zeca não é mais do que homenagear o amigo, o poeta e o músico que. no dizer de João de Freitas Branco, tem um significado muito importante no panorama da cultura musical portuguesa.

 

lido por Sérgio Marques na Noite de Poesia do Flor
Junta Freguesia de S. M. Infesta – 
25/02/94
(Autor: José Ferraz Alçada)


sentimento: com forças para lutar!
música: "Balada de Outono" - Zeca Afonso

publicado por zeca maneca às 19:53
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